Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

A guitarra da família Salaverri de Mondonhedo

Isabel Rei Samartim
jueves, 6 de mayo de 2021
Etiqueta e boca da guitarra Salaverri © 2021 by Isabel Rei Samartim Etiqueta e boca da guitarra Salaverri © 2021 by Isabel Rei Samartim
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Às vezes, um simples passeio por uma cidade monumental traz descobertas maravilhosas e inesperadas que, como neste caso, podem abrir uma luminosa janela musical. Em agosto de 2013, o guitarrista galego Pablo Rodríguez, filho do guitarrista e compositor Enrique Rodríguez, regente da prestigiosa orquestra de plectro Albéniz da Corunha, passeava pelas ruas de Mondonhedo convertidas em feira medieval. 

César Arias na sua oficina com a guitarra Salaverri. © 2021 by Isabel Rei Samartim.César Arias na sua oficina com a guitarra Salaverri. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Segundo o próprio Pablo me contou, ali tinha visto uma guitarra romântica com estojo que, sem mais dilação, adquiriu. Mais tarde, enviada para o seu restauro à oficina do violeiro galego César Arias, pude ver e fotografar a guitarra, além de reparar no belo estojo de madeira e nas valiosas informações que continha. Estas informações foram as chaves que permitiram reconstruir a história deste instrumento desde a primeira metade do século XIX até à atualidade.

A família Salaverri

Parte de trás da cabeça da guitarra Salaverri. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Parte de trás da cabeça da guitarra Salaverri. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Um dos envelopes que acompanhavam a guitarra continha o nome de Pedro Salaverri e o endereço do bairro dos Moinhos, em Mondonhedo. Pesquisei essa pista, suspeitando que o instrumento teria pertencido a alguma família mindoniense e, com efeito, ela apareceu através do amável informante Joaquin Salaverri Cabanelas, quem também contribuiu com outros contatos e diversas informações genealógicas. 

Pieza enlazada

A família Salaverri-Pedrera tinha chegado de Urdazubi, no País Basco, para estabelecer uma fábrica de curtumes em Mondonhedo no último terço do século XVIII. Filho dela foi Juan Gilberto Salaverri Pedrera (1782-1856), já nascido e casado em Mondonhedo com a mindoniense Josefa Fernández Fernández (m. 1835). O casal teve sete crianças, três mulheres e quatro homens, entre os anos de 1814 e 1833, em pleno período Biedermeier galego. 

Como temos visto em artigos anteriores, a intenção de ensinar música como método educativo e de aprender a tocar a guitarra estava no ambiente das famílias acomodadas, daí que os Salaverri também se interessaram por esta prática musical.

A violeira Viúva de Parizot e o violeiro Lauriol

Etiqueta da guitarra Viúva de Parizot e Lauriol. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Etiqueta da guitarra Viúva de Parizot e Lauriol. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Graças à etiqueta que a guitarra ainda conserva vemos que foi construída pela extensa família de violeiros de apelido Parizot, ou Parisot, estabelecidos e documentados em Bordéus entre os anos de 1820 e 1862. Esta família parece ter tido membros dedicados à música, dum modo ou doutro, noutras cidades francesas como Nantes e Paris (The World of the Pianoforte; Vannes, 2003). Concretamente, o instrumento mindoniense pertence à época em que as guitarras são assinadas pela Viúva de Parizot em colaboração com outro violeiro chamado J. Ainé Lauriol. 

Pé do braço da guitarra Salaverri. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Pé do braço da guitarra Salaverri. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Visto que esta associação aconteceu nalgum momento entre os anos de 1820 e 1837, e sabendo que a Viúva de Parizot estaba estabelecida desde 1832 no endereço indicado na etiqueta, pode afirmar-se que seria entre 1832 e 1837 a possível data de construção da guitarra. Inclino-me por que a data seja mais perto do 1832 por causa de que nesse ano vários filhos da família Salaverri teriam chegado já à adolescência e estariam numa idade propícia para aprender a tocar um instrumento. 

Pieza enlazada

Lembremos que também Avelina Valladares tinha começado os estudos musicais nessa altura. Tudo parece indicar que a aquisição da guitarra por parte dos Salaverri foi uma inversão familiar com a intenção de educar as filhas e filhos na arte da música.

Os tesouros que acompanham a guitarra

Cordas sem usar guardadas no estojo da guitarra Salaverri. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Cordas sem usar guardadas no estojo da guitarra Salaverri. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Entre os outros objetos guardados no estojo da guitarra, além do envelope citado com o endereço e nome da família Salaverri, havia um fólio manuscrito, de formato antigo, a conter uma relação incompleta de citações em latim ordenadas por ordem alfabético; várias cordas de tripa usadas e sem usar num envelope com a inscrição de terem sido compradas antes do 25 de outubro de 1910; várias cravelhas e botões de madeira noutro envelope com a inscrição de serem aquelas que estavam na guitarra em 25 de outubro de 1910; e, por último, vários artigos de jornais e revistas sobre Andrés Segovia e os violinos Stradivarius, com fotos do violeiro alacantino Francisco Gorgé Soler, todos publicados por volta dos anos 1933-34.

Cravelhas e botões da guitarra Salaverri. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Cravelhas e botões da guitarra Salaverri. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Portanto, esta guitarra é um documento musical complexo, que oferece informações diacrónicas desde a época da sua construção e entrada na Galiza na primeira metade do século XIX, até ao século XXI, passando por vários momentos dos séculos XIX e XX. O instrumento parece ter sido visto como um cofre do tesouro familiar em que diversos membros foram depositando várias joias documentais ao longo do tempo.

Os irmãos Salaverri, mulheres ou meninos prodígio

Há notícia dos recitais dados por uns “irmãos Salaverri” nos anos de 1899 e 1900, no Círculo de Recreo de Mondonhedo e na Sociedad Católica de Obreros, com um duo de bandurra e guitarra (El Regional, 1899; El Correo de Lugo, 1900). 

Não há certeza de que irmãos seriam estes, mas enumero aqui os possíveis: Pedro Salaverri Bermúdez, solteiro e advogado, filho de Pedro Salaverri Fernández e Maria Bermúdez Barja, neto de Juan Gilberto Salaverri Pedrera, seria o Salaverri que figura nomeado no envelope com data de 1908. Este Salaverri tinha três irmãs, Ramona, Maria Josefa e Pascuala Salaverri Bermúdez, todas suspeitas de terem sido guitarristas ou bandurristas. Por outro lado, Pascuala Salaverri, que casou com Francisco Fanego Méndez, tenente capitão do batalhão de infantaria em Mondonhedo, teria duas crianças, Ramón Heraclio e Pedro Fanego Salaverri, que nasceriam por volta de 1890. Como as notícias dos recitais referem a juventude dos intérpretes, seria possível que fossem estas as crianças, meninos prodígio, a se apresentarem em sociedade, tendo Ramón, o mais velho, nove anos de idade.

Ramón Fanego Salaverri foi também proprietário dum salão de baile na Foz, que em 1916 acolhia a orquestra de plectro dirigida pelo guitarrista José Castañeda, a quem trataremos noutro artigo. Por outro lado, o pesquisador mindoniense García Doural (2021) documenta um outro parente, Ramón Salaverri Calaza, como pintor em Viveiro (Viveiro, 2007), também músico gaiteiro e integrante do grupo tradicional Os Montes, que em 1908 tiveram o labor inesperado de custodiar os restos de Manuel Curros Henriques desde a sua saída de Cuba até à chegada à Galiza (Almuinha, 2008). García Doural diz ser este o mesmo Salaverri mais tarde instalado em Vigo, que recuperou a orquestra de plectro Martin Codax. Por último, a família Salaverri teve também um intérprete documentado entre 1903 e 1904, a tocar algum instrumento de arco em formações de quarteto e sexteto junto com Rodríguez Soto, César Seco, Julio e Eduardo Teijeiro e Ínsua (El Norte de Galicia, 1903; 1904).

Descrição da guitarra Viúva de Parizot e Lauriol

Guitarra da família Salaverri. Coleção de Pablo Rodríguez. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Guitarra da família Salaverri. Coleção de Pablo Rodríguez. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Quando chegou à oficina do violeiro César Arias, a guitarra da família Salaverri, cuja longitude da escala é de 632 mm., estava acompanhada de duas cordas primas e sem usar, de 0,54 e 0,52 mm de secção. Além disso havia cinco cordas de tripa usadas com diferentes secções, três delas revestidas de metal; vários jogos de cravelhas de nácar e ébano a fazer um total de 11 cravelhas e 5 botões, incluindo as que tem a guitarra. 

Escala gasta, tal como chegou à oficina de César Arias. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Escala gasta, tal como chegou à oficina de César Arias. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Uma análise da escala levou a concluir que tinha sido muito tocada, pois assim o indicam as marcas deixadas nos trastes e no tampo, lugar onde se intuem as linhas dos dedos e mesmo a posição da mão direita. Também os bigodes do cavalete tinham sido reduzidos e limados, como se fossem adornos reformados ou se tivessem querido igualar, perante um hipotético desgarro nalgum deles. Também se observou uma intervenção profissional na parte de trás da caixa, uma linha fina de madeira que se introduziu aproveitando a carcoma. Por último, o tampo parece que foi rebaixado pela zona do cavalete. 

Neste momento, a guitarra, que já é um tesouro nacional, espera um restauro completo com o objetivo de retornar às mãos do guitarrista que providencialmente a salvou do esquecimento um belo dia em Mondonhedo.

Bibliografia

Almuinha, R. P. (2008). A la Habana quiero ir: los gallegos en la música de Cuba. Santiago de Compostela: Sotelo Blanco.

El Correo de Lugo (1900). Desde Mondoñedo. Lugo: 15 de junho, 2.

El Norte de Galicia (1903). Desde Mondoñedo. Lugo: 29 de dezembro, 1.

El Norte de Galicia (1904). Desde Mondoñedo. Lugo: 28 de janeiro, 1.

El Regional (1899b). Desde Mondoñedo. Lugo: 17 de março, 1.

García Doural, A. (2021). Un músico y artista. Ramón Salaverri. Blog Miscelánea mindoniense. Publicado em 27/02/2021. (Consultado em 16/04/2021).

The World of the Pianoforte. Página web dedicada ao estudo dos construtores e vendedores de pianos e outros instrumentos musicais. (Consultado em 16/04/2021).

Vannes, R. (2003). Dictionnaire Universel des Luthiers, (3ª ed.). Bélgica: Les Amis de la Musique. Primeira edição de 2 volumes publicada entre 1951 e 1959.

Viveiro. Libro-pregón Semana Santa (2007). Viveiro: Concelho.

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