Entrevistas

Délio Gonçalves: ando sempre à procura de novas linguagens, de novos territórios para explorar

Juan Carlos Tellechea
miércoles, 16 de junio de 2021
Délio Gonçalves con la Banda da Armada de Portugal © 2021 by Banda da Armada de Portugal Délio Gonçalves con la Banda da Armada de Portugal © 2021 by Banda da Armada de Portugal
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A educação pela música é uma das principais orientações que norteiam o destacado professor e capitão de fragata Délio Gonçalves, director da célebre Banda da Marinha Portuguesa que no passado dia 20 de Maio transmitiu no Youtube um concerto extraordinário por ocasião das comemorações do V Centenário do navegador Fernando de Magallanes.

Nascido na Azambuja e formado musicalmente (primeiro clarinete e fagote) em Portugal, depois na Universidade Internacional Menéndez Pelayo em Espanha e finalmente no Conservatório Real de Música de Maastricht na Holanda, Gonçalves foi condecorado e distinguido em várias ocasiões pelo seu destaque trabalhos.

Depois do concerto, do qual participaram solistas dos territórios pelos quais Magalhães percorreu em 1520 na sua perigosa viagem interoceânica, entrevistámos o maestro Gonçalves por escrito e por email. Estas são suas declarações exclusivas para mundoclasico.com:

Juan Carlos Tellechea Que reflexões tem sobre esta paragem das actividades culturais em geral e das actividades musicais em particular devido ao coronavírus?

Délio Gonçalves. © 2021 by Banda da Armada de Portugal.Délio Gonçalves. © 2021 by Banda da Armada de Portugal.

Délio Gonçalves: A maior de todas, é que mesmo filosoficamente tendo consciência disso, é a de que vivemos num Mundo muito frágil, e de que nada nele podemos ter como adquirido. O coronavírus veio revelar isso mesmo a quem ainda tinha dúvidas a esse respeito, e por à prova toda a humanidade. Em particular na área artística e não só na da música! veio por a nu a sua já conhecida e natural vulnerabilidade. Esse mundo parou. A humanidade empobreceu-se.

Que saldo (positivo e negativo) retira da situação?

De uma forma positiva, a utilização e desenvolvimento forçado das capacidades digitais, nas suas mais variadas formas e transversalmente a toda a área artística, veio minimizar os efeitos e o impacto brutal desta grande paragem forçada. Mas não veio, nem a vai solucionar. Até poderá ficar para o futuro, e é naturalmente sempre, mais uma ferramenta ao dispor das artes em geral e da cultura, e se ir desenvolvendo mais! Mas é meu entender que nunca substituirá a verdadeira essência da manifestação artística! No palco, e com proximidade entre artistas e público! Em simbiose.

 Por outro lado e negativamente, penso que perderemos muitos artistas e agrupamentos artísticos, que não vão conseguir resistir aos efeitos perversos desta longa paragem. Muitos já desistiram e mudaram o rumo das suas vidas para poder viver ou sobreviver. Garantidamente sairemos todos a perder e as artes muito particularmente. O tempo é o melhor remédio, e pode ser que ainda se consigam revitalizar ou refazer. Espero que sim para bem das artes e da manifestação artística em geral.

Que projectos tinha em curso e como teve de os modificar, e quais os que ainda pode empreender?

Carla Algeri con la Banda da Armada de Portugal dirigida por Délio Gonçalves en el en el concierto del V Centenario de Magallanes. © 2021 by Banda da Armada de Portugal .Carla Algeri con la Banda da Armada de Portugal dirigida por Délio Gonçalves en el en el concierto del V Centenario de Magallanes. © 2021 by Banda da Armada de Portugal .

O projeto permanente dos concertos calendarizados, e das mais variadas solicitações ficaram todos em standby, e à espera de nova oportunidade de data. Ficaram para quando a pandemia o permitir. A título de exemplo, antes do primeiro confinamento geral tínhamos uma grande estreia programada, a propósito dos 500 anos da circum-navegação de Fernão de Magalhães, uma Ode Sinfónica para Orquestra, Coro e Solistas, composta pelo compositor português Pedro Teixeira e a ser estreada no Teatro de São Carlos, e que precisamente uma semana antes dessa estreia, teve de ser cancelada. Estamos a programar essa estreia para março de 2022. Neste momento, fazem-se projetos e programa-se, sempre com o cancelamento ou a alteração de data na cabeça, porque para já o coronavírus torna tudo muito imprevisível, e temos de trabalhar nessa conformidade, o que é deveras desestabilizador. Mas tem de ser! Bem como os concertos que já estavam agendados, estamos à procura de janelas de oportunidade para fazer face a esses compromissos assumidos. Para já, tem de ser assim. Por outro lado e como sabe, a atividade artística está extremamente condicionada aos espaços onde se realiza, com regras impostas pela pandemia, que não permitem facilmente a atividade sinfónica, e por isso temos encontrado naturalmente alternativas artísticas e musicais, utilizando repertório que permita a sua execução com outro tipo de agrupamentos, de música de câmara, ou ensembles diversos, mas mais pequenos que a estrutura Sinfónica da Banda, e dessa forma feito face às solicitações musicais, bem como à necessidade profissional dos músicos continuarem a trabalhar e a desenvolver o seu trabalho diário também em grupo, em equipa! Mantendo os assim os elevados padrões profissionais dos mesmos.


Como é que passa um dia na Banda da Armada, diariamente?

Banda da Armada de Portugal dirigida por Délio Gonçalves. © 2021 by Banda da Armada de Portugal.Banda da Armada de Portugal dirigida por Délio Gonçalves. © 2021 by Banda da Armada de Portugal.

O dia começa normalmente com o ensaio Tutti durante o período da manhã. Da parte da tarde, os chefes de naipe fazem cada um o ensaio com o seu naipe, e depois todos os músicos efetuam trabalho de estudo individual. Eu normalmente da parte da tarde trato do expediente formal e institucional, que a responsabilidade do meu cargo também tem contornos dentro da estrutura organizacional. Não é só da música que trato. Às vezes, quando a sorte me sorri, também posso ficar a estudar no meu gabinete!! Às vezes…… mas normalmente isso acontece é em casa à noite, no sossego, e já depois de os filhos estarem deitados!!

Praticamente dedicou a sua vida à Banda da Armada, o que mais lhe agrada nela?

Tudo!! Quando dedicamos a nossa vida a algo assim, é como se de um filho se tratasse. Por isso facciosamente gostamos de tudo, inclusive do que não gostamos. Mas diria que dos profissionais que servem a Banda. São eles que com a sua qualidade profissional a constroem e desenvolvem no dia a dia e a tornam reconhecidamente tão única.

Pelo que vi na gravação do concerto, tem um entendimento muito bom com os músicos da Banda, qual é o segredo desta comunicação muito boa?

Délio Gonçalves. © 2021 by Banda de la Armada de Portugal .Délio Gonçalves. © 2021 by Banda de la Armada de Portugal .

Não sei se existe algum segredo a esse respeito. Eu quando toco neste instrumento, tenho de o dominar por completo, de uma ponta à outra. Por outro lado, nunca evito de me expor por completo, tecnicamente e emocionalmente ao que estou a fazer, ao que estou a sentir, e ao que pretendo dos mais variados momentos musicais, e outros que um concerto atravessa. Aliás, para mim como Maestro nem de outra forma seria possível. É claro que em particular com a Banda da Armada, todos trabalhamos juntos durante um longo período de tempo, e esse conhecimento intrínseco do que posso esperar em particular ou em conjunto dos músicos, e eles de mim! Sou um privilegiado!!! Porque esse conhecimento e essa vivência, facilita decisivamente a construção da simbiose entre todos, nos mais variados momentos. Nos melhores e nos piores ou mais difíceis. Sabemos o que podemos esperar uns dos outros, e por isso os limites da execução musical alargam-se com frequência, e são levados muitas vezes ao limite extremo!! E eu sou muito abusador. Mas não faria sentido para mim se não fosse assim! Sem viver esse risco da execução e da emoção, transposta pelo som da Banda para o público. É mesmo feitio.

Que outras actividades musicais faz fora da direcção da Banda de la Armada?

Sou convidado com frequência para dirigir concertos com outras Bandas ou Orquestras em Portugal e no estrangeiro, para júri em concursos de música nacionais e estrangeiros, para lecionar direção em seminários ou workshops, trabalho com frequência com Bandas amadoras, etc.. onde a música me levar e quiser.

Ainda toca fagote, dá lições sobre este instrumento?

Não, quando assumi as funções de Maestro da Banda da Armada, e pelo que já lhe respondi anteriormente, percebi que não iria mais ter o tempo necessário para o continuar a fazer profissionalmente e devidamente, e nessa altura então decidi que: como a música não me tinha feito mal nenhum, eu também não iria fazer mal à música, e livrá-la de mim com o Fagote!! He he he!!!! Por isso, ensinar Fagote então é que nem pensar. Há muita gente, e muita gente BOA para o fazer, não sou preciso eu para estragar!! He he he.

Foi ideia sua ou de um predecessor seu converter a Banda da Armada numa banda sinfónica?

Délio Gonçalves. © 2021 by Banda da Armada de Portugal.Délio Gonçalves. © 2021 by Banda da Armada de Portugal.

A Banda já é há longa data uma Banda Sinfónica. O que eu fiz, foi mudar a estrutura Sinfónica que existia, e dessa forma alarguei o seu potencial orquestral, para fazer face às necessidades artísticas do presente e a pensar no futuro. Como eu costumo dizer, as artes em geral estão em permanente mutação. Umas acontecem mais rápido que outras, e nem sempre as conseguimos fazer tão depressa como o desejaríamos, e por razões que nada têm a ver com a nossa vontade, ou a vontade da organização em  realizá-las. Mas sim, por razões que estão sujeitas e presas a um sem fim de condicionalismos, e por isso às vezes o processo é mais ou menos moroso.

Que repertório tem a Banda?

A Banda é muito eclética e multifacetada, e por isso tem todo o tipo de repertório no seu acervo.

É curioso?

 Sim, ando sempre à procura de novas linguagens, de novos territórios para explorar. Ainda que, as possibilidades que temos e que conhecemos, estão ainda muito longe de estar esgotadas.

Você (como os navegadores de antigamente) gosta de explorar terrenos desconhecidos na música?

Sim, gosto muito, e sempre que possível, faço questão de trazer nova música ao público, bem como de tocar e estimular o trabalho de novos compositores. É uma questão de princípio educativo com que gosto de pautar o meu trabalho, de partilhar e brindar o público com essa novidade, de estimular os criadores e as novas criações. 

Quando se toca o hino português, toca-se uma interpretação particular da sua música?

Toca-se a versão correta e oficial da mesma. É o que tem de ser e como tem de ser. Não há outra forma.

As marchas militares ainda estão a ser compostas, será que a Banda da Armada estreia regularmente novas marchas?

Sim, claro! Estreamos sempre que novas marchas militares nos chegam ao repertório para as poder tocar. Se há algum estilo ou algo que identifica não só a Banda como agrupamento, mas também a instituição militar de que faz parte, é sem dúvida alguma a MARCHA . Por isso faz sempre e naturalmente parte integrante do seu repertório e imagem, e sempre que há novidades a esse nível, fazemos questão de as tocar.

Por exemplo: a marcha que a Banda tocou no final do concerto de 12 de Maio e transmitiu no youtube no dia 20 de Maio, qual é a sua história?

Foto oficial de la Banda da Armada de Portugal. © by Banda da Armada de Portugal.Foto oficial de la Banda da Armada de Portugal. © by Banda da Armada de Portugal.

Bom, essa é o nosso ex-libris! É a Marcha dos Marinheiros. Terminamos sempre os concertos e desfilamos em parada com essa Marcha. É uma marcha icónica que se popularizou ao longo dos anos como tal, e hoje é identificativa e faz parte da identidade da Marinha.

A história da marcha, está ligada ao filme Bocage, dirigido por Leitão de Barros em 1936, na altura cantada pela primeira vez nesse filme, por Raul de Carvalho, com música de Carlos Calderon e letra de Matos Sequeira e Pereira Coelho Marcha. Depois foi introduzida no repertório da Banda pela mão do então Maestro Primeiro-Tenente Fortunato de Sousa, que fez a adaptação para a Banda, e que a tornou popular por todo o país. Depois, logo no início dos anos 90, a mesma foi adotada em definitivo para a Marinha.  Todos os Marinheiros e todo o país a conhecem.

A Banda da Marinha pertence a alguma organização europeia que reúna bandas militares?

Não.

Há reuniões regulares com outras bandas militares?

 Sim, mantemos contato regular.

Que compositores são os seus favoritos, e porquê?

Não tenho nenhum compositor particularmente favorito. Gosto mais ou menos de determinadas obras, de vários compositores, estilos e épocas. Mas é só o meu gosto pessoal.

Mas se tivesse de escolher, escolheria Mahler. Há na grandiosidade e complexidade emocional da sua escrita uma atração que me é natural.

Quando tem de tocar perante as autoridades nacionais portuguesas ou convidados estrangeiros, como decide quais as composições a apresentar?

Faço sempre uma análise prévia ao local e ao momento, para diversificadamente o poder enquadrar esteticamente e depois propor superiormente. Umas vezes é mais fácil que outras. Depende muito das circunstâncias da realização do mesmo. Mas uma coisa é garantida, o Mar e a Marinha estão sempre presentes.

Quais são os hinos nacionais estrangeiros mais difíceis de tocar?

 Todos. É uma responsabilidade com peso formal e institucional muito grande.

Alguma vez foi levado às lágrimas enquanto tocava uma composição que o comoveu muito?

Sim, várias vezes! Às vezes não dá nem consigo evitar. O envolvimento emocional é tal, que não dá para aguentar. Já me descontrolei de tal maneira uma vez, que parei de dirigir por momentos! Alguns dos músicos por isso e nesse momento, também se foram descontrolando inevitavelmente, e depois lá respirei e continuei, e eles também. São os ossos do ofício.

Fazem uma digressão pela Europa ou outras partes do mundo com a Banda da Marinha; há alguma digressão planeada e ainda pendente para depois desta pandemia ter passado?

 Não, nem nunca fizemos. A espaços largos deslocamo-nos ao estrangeiro, mas não é comum, infelizmente. Não temos nada programado.

Tem alguma situação engraçada ou humorística que lhe tenha acontecido enquanto conduzia a Banda da Marinha?
Sim várias!! Mas…. Ficam para nós!!! He he.
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