Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

O compositor, guitarrista e barbeiro ourensano Ramón Gutiérrez Parada (1874-1945)

Isabel Rei Samartim
jueves, 1 de julio de 2021
Ramón Gutiérrez Parada (Ourense, 1874-1945) © 2021 by Isabel Rei Samartim Ramón Gutiérrez Parada (Ourense, 1874-1945) © 2021 by Isabel Rei Samartim
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Artigo dedicado ao meu prezado informante e amigo Paulino Izquierdo Gutiérrez, neto de Ramón Gutiérrez Parada.

A cidade de Ourense foi um fervilhar de atividade guitarrística durante o último terço do século XIX e primeiro do XX. Os barbeiros músicos, as orquestras de plectro, os coros, as bandas, as escolas de música e as atividades como recitais, rondas e todo tipo de atuações com ocasião das festas locais ou do relacionamento entre associações filantrópicas, formavam um denso tecido sonoro que povoava a capital do Minho.

Nascido em 24 de setembro de 1874 no lugar da Rabaza, hoje parte da cidade de Ourense, o compositor, guitarrista e barbeiro Ramón Gutiérrez Parada (1874 - 1945) foi um dos seis irmãos e irmãs da família formada por María Concepción Parada Ratón e Juan Gutiérrez Fernández. 

Foto familiar do matrimónio Gutiérrez-Fernández com filh@s e amizades. © Coleção da família.Foto familiar do matrimónio Gutiérrez-Fernández com filh@s e amizades. © Coleção da família.

Os filhos do casal prosperaram na Ourense de final do século desenvolvendo diferentes ofícios, especialmente o de barbeiro, que foi adotado por vários dos irmãos. Ramón Gutiérrez teria, além da barbearia, um talento especial para a música que se manifestou na sua atividade interpretativa e compositiva.  Casou com Amalia Fernández Méndez e tiveram sete filhos e filhas. Consta na memória familiar que o filho Vicente, nascido em 29 de agosto de 1899, e a filha Maria Victoria, nascida em 25 de outubro de 1908, estudaram violino e guitarra, e que toda a família tinha o costume de se reunir para formar um grupo de instrumentos de plectro, guitarras e violinos.

La Nueva Luz

Foto da barbearia La Nueva Luz, na Rua Santo Domingo, 24, Ourense. © by Coleção de Paulino Izquierdo.Foto da barbearia La Nueva Luz, na Rua Santo Domingo, 24, Ourense. © by Coleção de Paulino Izquierdo.

Ramón Gutiérrez Parada instalou a barbearia de maçónico nome La Nueva Luz na rua Santo Domingo, no rés-do-chão de uma casa onde nos pisos superiores estava a moradia familiar. O barbeiro dava aulas de música e preparava as atuações no próprio estabelecimento. Gutiérrez Parada foi excelente guitarrista, regente de coros, grupos de plectro, e compositor para banda, coro, piano, cordofones de arco e de mão. Possuía dous violinos de grande qualidade, como também de qualidade era a sua guitarra, segundo se aprecia nas fotos familiares.

Foto do professorado na Escola Normal ourensana, 1915. Gutiérrez Parada é o segundo pela esquerda, de pé. Diante dele, sentado, segundo pela esquerda, está um jovem Vicente Risco. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Foto do professorado na Escola Normal ourensana, 1915. Gutiérrez Parada é o segundo pela esquerda, de pé. Diante dele, sentado, segundo pela esquerda, está um jovem Vicente Risco. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Ganhou em 1903 o Diploma de Honor na Academia de Música de Erviti, em Donostia. Em 1906 recebeu outro Diploma honorífico da mesma academia para os estudos de harmonia e composição. Foi regente do orfeão Unión Orensana, professor de música na Escola Normal de Maestros com Vicente Risco, membro da Real Asociación Académica de Escritores Gallegos Laureados, membro das Irmandades da Fala e assinante do Manifesto da I Asemblea Nazonalista (Lugo, 1918), sob o nome de R. Gutiérrez, onde se propõe a criação duma Escola Musical Galega.

Os prémios de composição

Este guitarrista ourensano foi um dos compositores a participar do movimento de criação de música galega no primeiro terço do século XX. Travou amizade com a Federazione Mandolinistica Italiana, a cujos concursos de composição enviou várias obras. As obras premiadas eram mais tarde publicadas no órgão divulgador da federação, que era a revista quinzenal Il Plettro, publicada entre 1906 e 1942/43 (Bazzotti). Uma seleção dessas obras era escolhida para integrar os álbuns da coleção de música intitulada Biblioteca del Chitarrista, que realizava o editor da revista, Alessandro Vizzari.

Pelos números conservados de Il Plettro deduz-se que Gutiérrez Parada enviou várias obras ao concurso da Federação italiana, sendo os anos de 1912, 1913 e 1914 os mais produtivos. Em 30 de março de 1912, a revista publica uma parte das obras admitidas no concurso, sem nomear os autores. Aí é onde, para além de outras obras que também nos interessam, figura como apresentada na Categoria E do concurso a intitulada Nueva Luz, em possível e clara referência à barbearia de Gutiérrez Parada. Em 15 de abril, a revista publica os galegos premiados, que são Ramón Gutiérrez Parada pela obra Pensando en ti Gavotta para guitarra, e o viguês José Mouriño Vilas pela obra Mi primera Marcia (Marcha) para quarteto de plectro. Este bandolinista viguês será tratado em posteriores artigos.

Um outro prémio italiano, que consta ganhado por Ramón Gutiérrez pelas suas composições para guitarra, é o do ano 1924, quando a jota Viva Aragón é selecionada para integrar o 3º Álbum da Segunda Série do editor Vizzari dentro da Biblioteca del Chitarrista. Não consta que Parada tenha sido premiado na Espanha, ainda que enviou mais obras a concursos de composição dentro do Estado. Talvez tenhamos aqui um outro caso de reconhecimento, só no estrangeiro, da arte dum galego.

Uma revisão da obra de Gutiérrez Parada

Retrato de Gutiérrez Parada com guitarra. © Coleção de Paulino Izquierdo.Retrato de Gutiérrez Parada com guitarra. © Coleção de Paulino Izquierdo.

A obra de Mouriño Vilas, premiada no mesmo 4º concurso que a de Gutiérrez Parada, saiu publicada em Il Plettro no número de 30 de setembro de 1912, número pouco conhecido que se conserva no Arquivo do Museu da Ponte Vedra, na coleção de Javier Pintos Fonseca. É por isso que a Gavota Pensando en ti, do mestre ourensano, teria que ter sido publicada nalgum número anterior ou posterior a esse. Infelizmente não se acham disponíveis esses números, que podem consultar-se em Pocci. Mas, sem dúvida, esta gavota premiada deve incluir-se entre as obras para guitarra do nosso autor.

Em 30 de abril de 1913, de novo a revista Il Plettro publica uma obra de Gutiérrez Parada para guitarra, trata-se do passodoble Flores de España, que será também recolhida no Álbum n.º 2 publicado à parte por Vizzari, junto com obras dos autores Renzo Bisi, Umberto de Martino, o russo Visotsky, Aldo Ferrari e Vittorio Corezzola. Visotsky era o grande amigo russo de Sors. Ferrari era um guitarrista e professor italiano que fazia parte dalguns júris dos concursos da Federazione. Os outros são professores guitarristas, contemporâneos de Luigi Mozzani e Ermenegildo Carosio, estes últimos mais conhecidos fora da Itália, todos do mesmo tempo que Gutiérrez Parada.

Uma outra Gavotta para bandolim ou violino e piano foi publicada em 15 de novembro de 1914, de novo na revista Il Plettro. Nesse mesmo número, a revista dedica um artigo ao nosso guitarrista, de que se extraem importantes informações, como que a obra premiada em Vigo com medalha de ouro estava escrita para coro de quatro vozes. Desta obra sabemos, pela revista Mundo Gráfico publicada em janeiro do mesmo ano, que se intitulava Alborada. A notícia italiana informa de que Gutiérrez Parada tocou um recital em Ourense no mês de setembro anterior, ocasião em que interpretou uma Fantasia sobre a Traviata, que poderia ser a obra de Arcas. 

Retrato de Gutiérrez Parada reproduzido na revista italiana Il Plettro. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Retrato de Gutiérrez Parada reproduzido na revista italiana Il Plettro. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Finalmente, a notícia publica um novo retrato do guitarrista e compositor ourensano, a quem qualifica de “collaboratori all’Estero” (trad.: colaborador no estrangeiro) e acaba desejando “un cordiale saluto insieme agli auguri de nuove e sempre brillanti vittorie” (trad.: Uma saudação cordial unida ao desejo de novas e brilhantes vitórias).

Uma última obra para guitarra composta por Ramón Gutiérrez Parada, além das já nomeadas, é o belíssimo Prelúdio n.º 5, conservado na coleção de música do desconhecido guitarrista viguês Alfredo López Fernández, aluno de Parada e dedicatário do prelúdio. Esta coleção conserva-se atualmente em Vigo, no arquivo musical do pianista e amigo Alejo Amoedo Portela. É uma partitura manuscrita do autor assinada em Ourense, em 15 de agosto de 1934.

Um comentário mais extenso sobre as obras de Gutiérrez Parada pode ver-se na tese A guitarra na Galiza, publicada em aberto aqui, aqui e aqui. Agora encerramos este breve artigo, que tratou de mostrar o mais básico dum dos nossos compositores mais relevantes do primeiro terço do século XX, com uma relação das suas obras conhecidas até ao momento:

1907: Unha festa n-o Ribeiro, para banda de música.
1907/08: Genio y Arte, para banda de música.
1912: Gavotta Pensando en ti, para guitarra.
1913: Passodoble Flores de España, para guitarra.
1913/14: Alborada para coro a quatro vozes.
1914: Gavotta para bandolim ou violino e piano.
1914: Caballeros de Luis XIV, para orquestra de plectro.
1916: Unha festa n-o pinar, rapsódia galega com redução para piano.
1919: Moinheira, para piano. Fragmento do Allegro de Unha festa n-o pinar.
1922: Passodoble Vigo, para banda de música.
1924: Jota Viva Aragón, para guitarra.
1929: Galicia, para orquestra de câmara formada por violinos, violas, violoncelos, contrabaixo e piano.

O Prelúdio n.º 5 foi interpretado pelo guitarrista galego Samuel Diz em 4 de abril de 2013, no Liceu ourensano. E também esse Prelúdio, mais duas peças para guitarra, a moinheira para piano e a obra para orquestra de câmara integraram o concerto de músicos galegos celebrado em 30 de abril de 2014 no Conservatório Profissional de Música de Santiago de Compostela, junto duma seleção de peças do também guitarrista galego, Luis Eugenio Santos Sequeiros, que será tratado em posteriores artigos. Na atualidade, ainda que falta uma reflexão informada sobre a música para banda e orquestra, a obra para guitarra de Gutiérrez Parada é interpretada de modo regular cada vez por mais guitarristas.

Para finalizar, lembrar que quase nenhuma destas informações teria sido conhecida sem a ajuda do neto de Gutiérrez Parada, que conservou a história familiar e soube transmiti-la à autora deste artigo. Paulino Izquierdo Gutiérrez (Ourense, 1944) licenciou-se em Filosofia e Letras pela Universidade de Salamanca, exerceu como docente de Grego em Ribadeu, Chantada e Ourense, com o mérito de catedrático da sua especialidade e presidiu a Sociedade Cultural "Albor do Couto" entre 1977 e 2003. Publicou Los orígenes del Carnaval (1985), Ritos, costumes e expresións da coresma e da Semana Santa (2011) e A ermida santuario de Nosa Señora dos Remedios de Ourense (2015). Nos últimos tempos procurou recuperar, com sucesso, a história do seu avô.

Bibliografia
Bazzotti, M. Le riviste chitarristiche storiche italiane.
Manifesto da I Asemblea Nazonalista (1918).
Mundo Gráfico (1914). D. Ramón Gutierrez Parada. Madrid: 21 de janeiro, p. 7.
Pocci, V. (2009). Biblioteca della Chitarra e del Mandolino. Blog.
Para consulta dos números disponíveis de Il Plettro e dos Álbuns de Vizzari
Rei-Samartim, I. (2020). A guitarra na Galiza. Tese de doutoramento. Universidade de Santiago de Compostela. Informação sobre Ramón Gutiérrez Parada nas páginas 469-470 e 1645-1670, com todas as referências bibliográficas.
Rivas Villanueva, L. (1998). Opúsculo para barbeiros e perruqueiros. Ourense: L. R. V.


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