Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

O fundo guitarrístico de Javier Pintos Fonseca (3). As partituras

Isabel Rei Samartim
jueves, 16 de diciembre de 2021
Retrato de Andrés Segovia por Manuel Quiroga © by Museu da Ponte Vedra Retrato de Andrés Segovia por Manuel Quiroga © by Museu da Ponte Vedra
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A música do fundo de Pintos Fonseca, conservado hoje no Arquivo do Museu da Ponte Vedra, divide-se entre obras para guitarra (104), para voz e guitarra (10), para duas guitarras (6), para guitarra e outro instrumento como bandolim/bandurra (2) e violino (5), e para conjunto ou orquestra de cordofones (3). No conjunto há música cénica para ópera (15 arranjos), canção (6), zarzuela (5) e comédia (1). No artigo anterior comentamos algumas delas, agora continuamos o comentário sobre outras que somente foram nomeadas, mas que por diversos motivos conferem um enorme valor ao repertório guitarrístico galego.

Autores galegos: Chané e Mourinho

Capa da obra Alalá e Alvorada de José Castro Chané, arranjada por S. Rodríguez Gómez, propriedade de Evangelino Taboada, 1926. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Capa da obra Alalá e Alvorada de José Castro Chané, arranjada por S. Rodríguez Gómez, propriedade de Evangelino Taboada, 1926. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Nomeamos no artigo anterior umas obras destes autores, que pela sua importância bem merecem um artigo à parte. Aqui adiantamos que a partitura de Chané, arranjada para orquestra de plectro pelo pianista, compositor e regente de orquestras de plectro, Santos Rodríguez Gómez, levou-nos a conhecer a fascinante, e ao mesmo tempo tremenda, história do lalinense guitarrista e relojoeiro Evangelino Taboada Vázquez (Lalim, 1897 – Vigo, 1954), proprietário da partitura, que sofreu o saqueio da sua biblioteca e os abusos por parte dos golpistas desde 1936 em adiante.

Capa da revista «Il Plettro», 30-9-1912. © by fundo Pintos Fonseca no Arquivo do Museu da Ponte Vedra.Capa da revista «Il Plettro», 30-9-1912. © by fundo Pintos Fonseca no Arquivo do Museu da Ponte Vedra.

A respeito da obra para quarteto de plectro, premiada na Itália em 1912, do bandolinista José Mourinho Vilas intitulada Mi primera marcia, dizer que foi em paralelo aos numerosos prémios ganhados pelo ourensano Ramón Gutiérrez Parada. Supomos que algum tipo de amizade e influência deveu haver entre eles para ambos os dous se apresentarem a esses concursos de composição organizados pela sociedade musical italiana Il Plettro. Graças a um exemplar único da revista desta sociedade que se conserva na coleção de Pintos Fonseca, no Museu da Ponte Vedra, pudemos reconstruir uma parte da feliz história desses prémios para a música galega.

Autores galegos: Pintos e Samartim

Capa da canção napolitana «Pozzo fa o' prevete» com desenhos de Javier Pintos. © by Coleção da família Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra.Capa da canção napolitana «Pozzo fa o' prevete» com desenhos de Javier Pintos. © by Coleção da família Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra.

Entre as obras manuscritas que vimos na casa familiar dos Pintos-Fonseca, que logo passarão a fazer parte do legado da família ao Museu da Ponte Vedra, está a canção cómica napolitana Pozzo fà 'o prevete?, da autoria de Vincenzo Valente e Ferdinando Russo, compositor e poeta napolitanos, especializados em opereta e canção cómica, de especial relevância na Itália de fim do século XIX e primeiras décadas do XX. A obra tem uma capa adornada com desenhos de Javier Pintos Fonseca em que inclui a assinatura e a data de realização da transcrição em 23 de outubro de 1895.

Javier Pintos Fonseca retratado en 1907 pelo seu co-irmão, o fotógrafo Joaquim Pintos Amado. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Javier Pintos Fonseca retratado en 1907 pelo seu co-irmão, o fotógrafo Joaquim Pintos Amado. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

A obra de Georges Lamothe, La Malle des Indes, op. 161, publicada em 1875, foi arranjada para a Orquestra Samartim em 1895. A capa da partitura foi desenhada por Javier Pintos Fonseca. Trata-se da particella de guitarra, que na segunda e terceira páginas desdobra-se em duas guitarras, o que indica que eram vários guitarristas a tocarem a mesma voz. A peça é claramente um acompanhamento de uma obra para os instrumentos do grupo de Pintos e Samartim, formado por doze componentes, todos membros da sociedade pontevedresa: Cosme Rupelo (g.), Benigno L. Sanmartín (v.), Victor Cervera (g.), Enrique Labarta (?), Torcuato Ulloa (piano), García Aboal (?), Jose Otero (?), Alvaro Berasategui (?), Javier Pintos (g.), Fernando Olmedo (f.), Federico Sanmartín (cb), Carlos Gastañaduy (?).

Para completar a formação instrumental, com a informação que temos, é preciso aventurar hipóteses. Tendo em conta o resto de formações já citadas no texto da tese, temos aqui com certeza 3 guitarras, 1 violino, 1 piano, 1 flauta e 1 contrabaixo. É possível que na formação completa houvesse mais dois violinos, duas bandurras e uma flauta, fazendo um conjunto de 3 violinos, 3 guitarras, 2 bandurras, 2 flautas, 1 piano e 1 contrabaixo. Ou também caberia uma formação de 4 violinos, 4 guitarras, 2 flautas, 1 piano e 1 contrabaixo. Em qualquer caso, sabemos que Lopes Samartim e Pintos Fonseca organizavam o grupo de câmara segundo fosse a ocasião, com mais ou menos componentes, dependendo da disponibilidade dos amigos.

Capa da partitura do «Duo para guitarras» de Benigno Lopes Samartim, 1903. Coleção da família Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Capa da partitura do «Duo para guitarras» de Benigno Lopes Samartim, 1903. Coleção da família Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

O duo de guitarras Hebe, da autoria de Javier Pintos Fonseca, consta de duas particellas, para a 1ª e 2ª guitarras, mais uma segunda versão da primeira guitarra, fazendo um total de 3 partituras. A obra está dedicada ao amigo Benigno Lopes Samartim em 1902. Da possível autoria de Javier Pintos também se conserva uma peça sem título assinada em 23 de outubro de 1895. No catálogo figuram mais três obras sem título, que poderiam ser igualmente da autoria de Pintos ou de Lopes Samartim. Uma delas, escrita para guitarra só, está datada em 1890. As outras duas, sem datação, estão escritas para duas guitarras e são acompanhamentos, pelo que poderiam ser partes soltas das obras da Orquestra, ou de alguma das outras formações camerísticas.

Como resposta musical ao duo de Pintos, Lopes Samartim compôs em 1903 um outro duo intitulado Duo para guitarras, em Mi M, como amostra da amizade e respeito que se tinham estes dois grandes músicos pontevedreses. Confiamos em poder publicar proximamente estas obras para uso d@s guitarristas atuais.

De novo, Parga

As obras de João Parga presentes no fundo de Pintos Fonseca são Capricho sobre las Murcianas, Recuerdos de Sevilla, Alhambra, Concierto clásico e Mi Lira, e foram publicadas por López e Pino. Tenha-se em conta que Parga tocava com uma guitarra de nove cordas, construída pelo luthier Antonio Lorca Pino, malaguenho e filho de Antonio Lorca García e Francisca Pino. É possível que estes Pino tivessem algo a ver com essa editora que publicou as obras de Parga.

A música galega de Parga não chegou a publicar-se e desconhecemos onde poderá estar à nossa espera. O ferrolano, que morou grande parte da sua vida na Andaluzia, só pensou em publicar quando viu perto o final da sua vida (1893). A sua última viagem à Galiza tinha sido anos antes (1889). Supomos que estaria na sua intenção publicar as obras galegas, que cremos também virtuosísticas, de grande formato e cheias de matizes. Assim, os manuscritos de Parga, se não foram destruídos, poderiam repousar ainda nalguma casa da Argentina, país aonde emigrou a sua guitarra, pois Domingo Prat afirma em 1934 que a tem no seu poder, também foram lá alguns dos seus melhores alunos e, quem sabe, se com eles também foram os seus manuscritos.

Miguel Carnicer Batlle (1793-1866).

A partitura de Miguel Carnicer leva escrita a data de 1854, sendo que a zarzuela de Barbieri estreava-se em 1851. Isto é mais de quinze anos antes do nascimento de Javier Pintos Fonseca (1869-1935). É esta a obra mais antiga de todo o fundo, que poderia ter chegado às mãos de Javier Pintos por herança do seu avô violinista e guitarrista.

Tomás Damas (1825-1890)

Uma das fontes mais curiosas é um caderno factício de encadernação marca Optimus, a conter 28 peças para guitarra de diferentes autores: Entreacto y danza de bacantes de Gounod/Federico Cano, Genio y arte, Fantasia, La Elegante, A mi morena, Polka de las modistas e Lolita de Tomás Damas, La paloma azul de Liern/Damas, Valses célebres de Leotard/Damas, Flor de Aragon de Monfort/Damas, Plegaria en la opera El Moises e La simpatia de Antonio Cano, Amor y Música, Un Ramillete de Flores e Me Conoces? de Francisco Cimadevilla, Mi Lira de Parga, Barbero de Sevilla de Rossini/Arcas, Marcha Funebre de Thalberg/Arcas, Andante, Polonesa e dous Minuetos de Arcas, El Gato, La criollita, Zamacueca, La güeya e 2.º Pericon de Alais e Una lágrima, de Gaspar Sagreras.

Entre os autores espanhóis está o já mencionado Tomás Damas, que é o mais abundante com 18 obras entre originais e arranjos de outros autores: as nove já nomeadas do caderno factício mais outras nove obras: Manchegas para guitarra, ¡Amor paterno! e Sacris solemnis, e os arranjos La indiana de Cereceda, La Paloma de Iradier, Sinfonia de la Norma de Bellini, Sinfonia de Juana de Arco de Verdi, Jota de Memorias de un estudiante de Oudrid e Dans les bois de Waldteufel.

Íncipit de «La paloma azul» de Núñez Robres em arranjo de Tomás Damas. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Íncipit de «La paloma azul» de Núñez Robres em arranjo de Tomás Damas. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Sobre a comédia La paloma azul, cuja mazurca arranjou Damas para guitarra, só sabemos que Lázaro Núñez Robres realizou a música do brinde, segundo lemos em Díaz (2001). Entendemos que o mesmo autor poderia ter composto a música de toda a comédia e, também, a desta singela mazurca. Seria bom que as pesquisas académicas na Espanha se orientassem a salvar estes vazios documentais de personagens tão destacadas para a música espanhola como foi o autor de La música del Pueblo (1867).

As obras de Tomás Damas têm certa singeleza orientada aos intérpretes amadores, mas não tanta como as de Cimadevilla. Nas obras deste fundo vemos que Damas tem realizado obras de maior dificuldade técnica como a sua composição própria ¡Amor paterno! ou alguma transcrição operística. Mas, sempre ele se mantém na clareza musical e técnica, sem procurar virtuosismos gratuitos. Além disso, as suas partituras são um exemplo de como evoluía no século XIX a codificação dos signos guitarrísticos. Por exemplo, em A mi morena, Damas inclui várias notas com explicação dos signos utilizados, na mesma linha que cultiva Parga.

Benito Montfort (1801-1871)

Benito Monfort, compositor da zarzuela Flor de Aragon, chamou-nos à atenção por ser desconhecida a sua atividade musical. Sougez e Pérez (2003, p. 310-311) descrevem-no como homem pecunioso de origem valenciana, residente na França e fotógrafo ativo ca. 1851. Em Toulier (2010, p. 259), referido como Raimundo Benito de Montfort (1801-1871), vemos que foi um mecenas das artes e da arquitetura, sendo um dos patrocinadores da construção do Casino Bellevue em Biarritz. E numa procura pelo catálogo da Biblioteca Nacional da Espanha podem ver-se em numerosos volumes referências a uma editora valenciana de nome Benito Monfort, ativa antes e durante o século XIX.

A surpresa é que no mesmo ano da morte de Benito Monfort, 1871, estreia-se a sua zarzuela da que Tomás Damas toma a jota que arranjou para guitarra. Na BNE acham-se as versões, todas publicadas em 1871 por Casimiro Martín, para piano, em redução feita pelo próprio Monfort, também para banda militar, para duas flautas ou flauta e violino, e a partitura para guitarra de Damas. A partitura do fundo Pintos Fonseca é a republicada com as pranchas de Martín, por Antonio Romero cinco anos mais tarde. É possível que tenha havido vários Benito Monfort, ou vários membros da família Monfort dedicados à impressão e à música, pelo que teríamos aqui mais uma saga familiar do estilo dos Ronzi, desta volta originários do País Valencià.

Francisco Cimadevilla (1861-1931)

Do guitarrista espanhol Francisco Cimadevilla há neste catálogo oito obras, sete originais e um arranjo: Amor y Música, Un ramillete de flores, Me conoces?, Berastegui, El velocipedista, La palmera e El vizcaíno, e o arranjo do Guernikako arbola de Iparraguirre. Todas elas são de feitura simples, que com poucas notas conseguem um alto nível de satisfação nos intérpretes amadores e guitarristas principiantes.

Antonio Cano (1811-1897) e Federico Cano (1838-1904)

 De Antonio Cano Curriela conservam-se outras oito obras, quatro delas originais: La simpatia, Mi patria, Principios de guitarra, Método completo de guitarra, e quatro arranjos: Plegaria en la opera El Moises de Rossini, Marcha y coro sacado de la ópera Norma de Bellini, Andante de la Sinfonía en Do de Haydn e Allegretto Scherzando de la sinfonia en fa de Beethoven. De Federico Cano é o arranjo para guitarra do Entreacto y danza de bacantes en la opera comica Filemon y Baucis de Gounod, que figura incompleto. As obras de Antonio Cano como a grande fantasia Mi patria ou o arranjo de Beethoven são de alto nível técnico e se complementam com outras como La simpatia ou a Marcha y coro de Norma, que são obras singelas para amadores.

Aquilino García (séc. XIX)

Capa do «Canto de amor» de López Almagro em arranjo de Aquilino García. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Capa do «Canto de amor» de López Almagro em arranjo de Aquilino García. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Do guitarrista que pode ser Aquilino García (Suárez-Pajares, 1999), do qual também há obras nos fundos de Fernando de Torres e Canuto Berea, está o arranjo do Canto de amor de Almagro. A edição não coincide com a do Fundo Local de Música de Rianjo, editada pelo próprio Almagro. A deste fundo tem uma tipografia mais moderna, talvez dos primeiros anos do século XX em Buenos Aires. O carimbo do estabelecimento musical de Luis F. Rivarola, editor argentino, ainda se vê na capa com data de 5 de novembro de 1901.

Suárez-Pajares nomeia o arranjo de Aquilino García do tango americano La neguita, que foi muito popular e já estava nas coleções de Iradier. Visto que o arranjo da música de Almagro foi editado em Buenos Aires, parece clara a ligação de A. García com a América Latina. Talvez este guitarrista emigrou a terras argentinas como Carlos García Tolsa e tantos outros da sua geração.

Finaliza no próximo artigo, onde se verão mais obras de Arcas, Ferrer, Brocá, Crespí e a relação de Pintos com outros guitarristas peninsulares.

Bibliografia

Díaz González, J. (2001). Lázaro Núñez Robres. Sobre la vida del primer autor de un cancionero popular español. La música del pueblo.
Prat, D. (1934). Diccionario biográfico, bibliográfico, histórico, crítico de guitarras, guitarristas, guitarreros... Buenos Aires: Romero y Fernández. Reedição: Prat, D. (1986). A biographical, bibliographical, historical, critical Dictionary of guitars, guitarists, guitar-makers... With an introduction by Matanya Ophee. Columbus: Editions Orphée.
Rei-Samartim, I. (2020). A guitarra na Galiza. Tese de doutoramento. Universidade de Santiago de Compostela. 
Sougez, M.-L. e Pérez Gallardo, H. (2003). Diccionario de historia de la fotografía. Madrid: Cátedra.
Suárez-Pajares, J. (1999). García, Aquilino. Casares, E. (Dir.) Diccionario de la música española e hispanoamericana, 5, (402). Madrid: Sociedad General de Autores y Editores.
Toulier, B. (Dir.) (2010). Villégiature des bords de mer. Paris: Éd. du Patrimoine, Centre des monuments nationaux.
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