Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

Agostinho Rebel Fernandes e seus métodos para guitarra

Isabel Rei Samartim
jueves, 27 de enero de 2022
Martinho d'Assunção © by Museu do fado Martinho d'Assunção © by Museu do fado
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À prezada poeta Lénia Oliveira,

que trabalhou no Arquivo de Vila Franca de Xira

Os concertos de Rebel na Galiza

As primeiras notícias que achamos do guitarrista de nome Agustín Rebel Fernández são as de uma gira que realizou pela Galiza no ano 1886. A primeira é uma nota referente à cidade de Vigo onde o "concertista de viola francesa" projetava dar um recital nalguma das sociedades de recreio (Gaceta de Galicia, 1886a). De Vigo vai a Vila Garcia, onde tocou no Teatro de la Tertulia. A mesma notícia anunciava as próximas atuações de Rebel na Tertulia de Carril (diferente da anterior) e no Circo-Recreo de Caldas (El Eco Comercial, 1886). Em Compostela, já no mês de fevereiro, os estudantes universitários organizavam um concerto de Rebel no Teatro Principal, partilhado com a pianista García e o sexteto Curros (Gaceta de Galicia, 1886b):

Gran concierto de guitarra
Primera parte
1º Ailema, fantasía brillante por A. Rebel.
2º Luisa, tanda de wals por idem.
3º Gavotte Stephanie, Ezibulka.
4º Pot-pourri español, arreglo de A. Rebel.
5º La Srta. de García ejecutará al piano la brillante fantasía de J. Pinilla sobre motivos de "Las Treguas de Tolomaide" del Maestro Eslava.
Segunda parte
1º Amar sin esperanza, meditacion de A. Rebel.
2º Célebre Aria de Stradella.
3º Variaciones sobre motivos del "Carnaval de Venecia" del Maestro Rossini, arreglo de A. Rebel.
4º El sexteto bajo la direccion del Sr. Curros, ejecutará la célebre melodía, "La primera lágrima", de Marqués.
Tercera parte
1º Tristes recuerdos, melodía de A. Rebel.
2º Malagueña, arreglo de id.
3º Los estudiantes de Santiago: Pasa-calles por A. Rebel.
Já no mês de março, Rebel viajou à Corunha e ao Ferrol. Nos dias 20, 21 e 30 atuou no Teatro Romea (ECG, 1886):
El Sr. Rebel, ejecutó en la guitarra con admirable maestria, todas las piezas anunciadas en el programa, valiéndole cada una de ellas calurosas salvas de aplausos y mereciendo algunas los honores de la repetición.

Depois foi a Lugo, apresentou-se na redação do El Regional e interpretou o Ave Maria de Gounod e o Miserere da ópera O Trovador de Verdi. Em 27 de maio atuou no Círculo das Artes (El Regional, 1886). No programa, além de algumas obras antes vistas, figuravam (El Eco de Galicia - Lugo, 1886): Airam, fantasia brilhante. Mil Flores, suite de valsas. Mercedes, melodia. La caja de música, imitação. Arturo, suite de valsas e Jota aragonesa de Arrieta.

Pieza enlazada

A sua gira continuava por Monforte de Lemos e Ourense, e aí perdemos as pegadas até ao verão do ano 1897, em que volta a aparecer em gira pelos balneários da Toja e Mondariz (La Correspondencia Gallega, 1897a), e como membro do Trío España formado pela prestigiosa bandurrista Miss Zaida, o guitarrista J. Asensio, e agora Rebel como componente estrela. O “trio”, que na realidade era a associação do duo de Zaida-Asensio com o solista Rebel, tocou no Café Méndez Núñez da Ponte Vedra e no Teatro Arrufana de Marim (La Opinión. Diario de Pontevedra, 1897a; La Voz de Morrazo, 1897). Mais tarde, Agustín Rebel voltou aos cafés de Lugo e, depois de estar em Ourense, planejou voltar a Compostela (El Eco de Galicia - Lugo, 1897; La Correspondencia Gallega, 1897b).

As giras continuadas de Rebel por território galego, não somente nas cidades mas também em vilas pequenas, poderiam indicar que o guitarrista fosse do país. Mas o seu repertório carente de peças galegas, e a falta de contato com os guitarristas galegos do seu tempo, unido à associação com dous músicos espanhóis, como Zaida e Asensio, fazem pensar que fosse um guitarrista espanhol que entre 1886 e 1897 visitou Galiza. Foi por deslocar-se a Lisboa que Agustín passou a ser Agostinho e Agostin para exercer como concertista, professor de música e autor de dous métodos para guitarra.

Os métodos publicados em Lisboa

Carta de Agostinho Rebel ao Presidente da Câmara Municipal. Arquivo de Vila Franca de Xira. © by BNP.Carta de Agostinho Rebel ao Presidente da Câmara Municipal. Arquivo de Vila Franca de Xira. © by BNP.

De 1898 é a carta manuscrita que Agostinho Rebel dirigiu à Câmara municipal de Vila Franca de Xira, na área metropolitana de Lisboa, para realizar um recital na Escola Conde de Ferreira dessa localidade. 

Nos anos a seguir há notícia de Agostinho Rebel através do seu aluno prodígio, o conhecido guitarrista de fado Martinho d'Assunção (Portal do Fado, 2010), e por ter publicado em Lisboa dous métodos de guitarra: Método elementar progressivo para Guitarra Espanhola e o Novo método para Guitarra Española Elementar e Progressivo

«Método Elementar», primeiro método de Agostinho Rebel, publicado ca. 1930 em Lisboa. © by BNP.«Método Elementar», primeiro método de Agostinho Rebel, publicado ca. 1930 em Lisboa. © by BNP.

Infelizmente não há informação nos métodos que nos informe das datas em que foram publicados. Porém, há dados para lançar alguma hipótese. No prefácio do Novo Método, o segundo em ser publicado, o autor afirma:

A prática, que tenho de cincoenta anos de vida artística e, portanto, de observação constante e cuidadosa, me deram elementos valiosos para deduzir regras que facilitam a execução de uma peça, constituindo uma técnica correcta ao alcance de todas as inteligencias.

Somando cinquenta anos a 1886, ano da primeira notícia de Rebel como concertista, dá a década de 1930 como possível e aproximado momento de publicação do segundo método. O primeiro, que não oferece uma pista semelhante, teria sido publicado antes pelo editor alemão fixado em Lisboa, Paul Maria Ressing. Segundo a Gazeta de Coimbra (1928) este editor dirigiu em 1928 uma revista de relacionamento português-alemão. Em 1931 ele publicou um pequeno livrinho esotérico sobre quiromancia. Ainda que o segundo método não explicita o nome de Ressing, sim coincide o nome da editora e a morada, portanto, os dous métodos foram publicados pela mesma editora.

Escalas diatónicas na p. 33 do «Método Elementar» de Agostinho Rebel. © by BNP.Escalas diatónicas na p. 33 do «Método Elementar» de Agostinho Rebel. © by BNP.

Curioso é que ainda sendo da mesma editora, sediada no número 86 da rua Regueirão dos Anjos, local onde hoje está a Associação Recreativa Taberna das Almas – ARTA (Nico, 2012), ambos os métodos apresentam características tipográficas bem diferentes. Quanto à estrutura, o primeiro Método elementar finaliza na parte dedicada ao desenvolvimento da mão direita, que chama de “primeira parte”. Isto poderia indicar a existência de uma segunda parte dedicada à mão esquerda, mas nos dous exemplares do primeiro método conservados pela Biblioteca Nacional de Portugal existe a falta dessa segunda parte. Então, ou há dous exemplares casualmente com a mesma falta, ou é que o método foi inicialmente publicado incompleto.

Segunda parte na p. 49 do Novo Método de Agostinho Rebel. © by BNP.Segunda parte na p. 49 do Novo Método de Agostinho Rebel. © by BNP.

Essa hipotética segunda parte dedicada à mão esquerda aparece no Novo Método, o segundo de Rebel que reproduz integralmente o primeiro acrescentando no início um prefácio e umas explicações teóricas, mais uma segunda parte, de tipografia e textos completamente diferentes da primeira, com elementos técnicos mais complexos. No Novo Método, o autor inclui, além de exemplos e exercícios, duas obras: uma valsa intitulada Campanadas e um Estudio final, a estabelecer o nível técnico a atingir depois de realizar os anteriores exercícios. Este segundo método parece ter sido uma revisão acrescentada do anterior, cousa que merecia, visto que o primeiro teria aparentemente sido publicado incompleto.

Gráfico no «Novo Método» de Agostinho Rebel. © by BNP.Gráfico no «Novo Método» de Agostinho Rebel. © by BNP.

Uma das características de Rebel como professor é que, ao contrário da norma atual, usava as letras (i, m, a, y) para nomear os dedos da mão esquerda, entanto que os números (1, 2, 3, 4) eram para os dedos da mão direita. Em ambos os métodos utilizam-se as duas línguas, português e castelhano, com diferente distribuição.

Maria dos Prazeres Franco (1883-1964)

O Método Elementar está dedicado à senhora Maria dos Prazeres Franco. Ainda que quase nada sabemos da vida pessoal do seu autor, conseguimos traçar um perfil da mulher a quem ele dedica o seu primeiro método, o qual nos dá uma ideia do ambiente que conheceu Agostinho Rebel em Lisboa. Maria dos Prazeres Franco nasce em Vila Franca de Xira, em 24 de julho de 1883, e morre na freguesia de São Sebastião da Pedreira, em 3 de dezembro de 1964 (Torre do Tombo). Filha do que fora secretário da Câmara de Vila Franca de Xira (1867-89), Mariano António Franco e de Sophya Eugénia Amado da Fonseca, casou com Augusto Pereira Vera-Cruz (1862-1933), natural da Ilha do Sal, Cabo Verde, conhecido como Senador Vera-Cruz, por ter sido durante a 1ª República, por quinze anos, senador pelo círculo de Cabo Verde. Uma irmã de Maria dos Prazeres, Aida Franco, foi a mãe de Alberto Franco Nogueira, embaixador e ministro com o ditador Salazar, que também nasceu em Vila Franca de Xira.

Não sabemos os motivos pelos que Maria dos Prazeres Franco figura como dedicatária no primeiro método publicado por Agostinho Rebel, mas é possível supor que a relação seria a de professor e aluna. O relacionamento de Rebel com esta abastada família poderia ter ajudado a atingir fama como professor de guitarra e facilitado a publicação dos métodos da sua autoria.

Obras de Agostinho Rebel Fernandes

Por último, deixamos uma relação das obras interpretadas por Rebel nos seus concertos na Galiza, onde notamos a falta de música galega, a profusão de composições próprias e um gosto pelos títulos com nomes de pessoas, talvez do seu alunado, como acontecia com Tárrega. Assim, Luisa, Mercedes, Arturo. E também ditos à inversa: Ailema é Amélia, Airam é Maria. Também, como era tradição, há nesta relação de obras alguns arranjos para guitarra doutros compositores. Infelizmente, ainda não conseguimos localizar nenhuma das partituras correspondentes a estas obras, nem tampouco outros dados importantes da vida de Agostinho Rebel:

1. Ailema, fantasia brilhante
2. Luisa, suite de valsas
3. Amar sin esperanza, meditação
4. Tristes recuerdos, melodia
5. Los estudiantes de Santiago, passa-ruas
6. Airam, fantasia brilhante
7. Mil Flores, suite de valsas
8. Mercedes, melodia
9. Arturo, suite de valsas
10. La caja de música, imitação
11. Preludio Sinfonia
12. El Arpa Eólica
13. Gran Wals de Salón
14. Campanadas, valsa
15. Estudio final
16. Pot-pourri español
17. Malagueña
18. Aria de Stradella (Fétis)
19. Variaciones sobre motivos del "Carnaval de Venecia", de Rossini
20. Ave Maria, de Charles Gounod
21. Miserere da ópera O Trovador, de Verdi
22. Jota aragonesa, de Emilio Arrieta
23. Gavotte Stephanie, de Alphons Czibulka

Pieza enlazada

Note-se que o Miserere verdiano é a mesma obra que também arranjou, mais ou menos pela mesma época, um outro guitarrista em Buenos Aires de quem já temos falado: Agustín Gómez. A ária atribuída a Stradella deve ser a ária de igreja Pietà Signore, que ainda hoje se conhece por "Ária de Stradella", célebre, mas impossível como composição do barroco bolonhês Alessandro Stradella (1643-1682). A Biblioteca Nacional da Espanha atribui esta composição ao belga François-Joseph Fétis (1784-1871).

 Referências

El Correo Gallego (1886). Ferrol: 21 de março, p. 2
El Eco Comercial (1886). Sección local. Vila Garcia: 30 de janeiro, p. 2
El Eco de Galicia. Diario de la tarde (1886). Lugo: 27 de maio, p. 3
El Eco de Galicia. Diario de la tarde (1897). Lugo y la provincia. Lugo: 30 de novembro, p. 3
El Regional (1886). Lugo: 26 de maio, p. 3
Fétis, F.-J. (1867). Pietà, Signore, di me dolente. Madrid: Carrafa y Sanz.
Gaceta de Galicia (1886a). Vigo. Santiago de Compostela: 7 de janeiro, p. 2
Gaceta de Galicia (1886b). Teatro Principal. Santiago de Compostela: 17 de fevereiro, p. 3
Gazeta de Coimbra (1928). Coimbra: 19 de julho, p. 5
La Correspondencia Gallega (1897a). Guitarrista. Ponte Vedra: 17 de julho, p. 3
La Correspondencia Gallega (1897b). Santiago. Ponte Vedra: 30 de novembro, p. 2
La Opinión. Diario de Pontevedra (1897). En el Méndez Núñez. Ponte Vedra: 14 de setembro, p. 3
La Voz de Morrazo (Ilustrado). Periódico bisemanal (1897). Marim: 14 de setembro, p. 8
Nico, M. (2012). Portugal como país de acolhimento de artistas estrangeiros. Boletim de Informação A.C.I.D.I., 94
Portal do Fado (2010). Guitarrista de doze anos encanta o Teatro Luísa Tody. Blog: 20 de agosto. (22/01/2022).
Rebel Fernández, A. (ca.1830). Método Elementar Progressivo para Guitarra Espanhola. Lisboa: Indústrias Gráficas de P. M. Ressing. Regueirão dos Anjos, 68
Rebel Fernández, A. (ca.1830). Novo método para Guitarra Espanhola. Elementar e Progressivo. Lisboa: Indústrias Gráficas [de P. M. Ressing]. Regueirão dos Anjos, 68
Torre do Tombo. Arquivo. Informação sobre Maria dos Prazeres Franco: SGU Microfilme 2358, livro de Batismos vol. 4 1882-1886, Arquivo Distrital de Lisboa, Arquivos paroquiais, Concelho de Vila Franca de Xira, n.º 49, datas extremas 1884, 6 páginas. Igreja paroquial de São Vicente Martyn.
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