Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

O exímio guitarrista naviego Amador Campos (1894-1962) (1)

Isabel Rei Samartim
jueves, 21 de abril de 2022
Cartaz de tournée de Amador Campos.  © by Fonte: Documentos da família. Cartaz de tournée de Amador Campos. © by Fonte: Documentos da família.
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Hoje apresento um guitarrista que descobri há dez anos, na sequência das pesquisas de Hemeroteca à procura de guitarristas no século XIX. Eram informações para incluir no texto da tese, mas a medida que avançava nas pesquisas ia vendo que incluir o século XX era uma loucura. Por causa disso aconteceu esta demora imprevista no processamento da informação e é só agora que apresento o que foi um dos grandes guitarristas da primeira metade do século XX.

No verão de 2014 assisti à Festa da Gira que se realiza em Návia, onde conheci alguns membros da família e recolhi boa parte das informações que conformam este artigo. Sem essa ajuda quase nada saberíamos da personalidade e dos afazeres familiares de Amador Campos, pelo que devo agradecer imensamente a Maria Nieves Rodriguez Prieto, neta de Amador Campos e ponte de ligação com o resto da família. Também aos filhos Alfonso e América (hoje falecid@s), e aos netos Amadorin (filho de Amador) e Amador (filho de Alfonso), que forneceram informações imprescindíveis sobre o seu pai e avô.

Os numerosos recitais dados por Amador Campos na Galiza ao longo de décadas, as suas amizades aqui e o carinho com que foi recebido e aplaudido sempre, além da sua origem eu-naviega, fazem que queiramos considerar Amador Campos um guitarrista galego, da Galiza que ainda existe nas Astúrias tanto na cultura quanto na fala, e também no sentimento de pertença e proximidade.

Amador Campos, Amador del Campo, Amador R. Campo, Amador R. Campos, Amador Campo

Retrato de Amador Campos pelo pintor burgalês Gil de Vicario, 1929. Fonte: El Pueblo Gallego. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Retrato de Amador Campos pelo pintor burgalês Gil de Vicario, 1929. Fonte: El Pueblo Gallego. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

Amador Rodriguez Fernandez Campo nasce em 1894 em El Espin (Coanha), vila do território entre os rios Eu e Návia, zona histórica dos falares galegos eu-naviegos. Filho de Rogelia Fernandez Campo Garcia-Junceda e Manuel Rodriguez Câncio, era de família abastada e com influência no seu entorno. Segundo o estudo genealógico da família Garcia-Junceda (1977), Rogelia era filha de Isabel Garcia-Junceda Fernandez e Juan Fernandez Campo Infanzon, os avós de Amador Campos, ainda que as origens familiares do apelido Junceda/Gonzeda chegam ao século XVII, sempre estabelecidos na margem direita do rio Návia.

Amador Campos recebeu uma boa educação que o levou a estudar para Administrador dos Correios e desenvolver uma boa técnica de desenho e pintura. Mas ele também respirou em Návia, o seu lugar de instalação, o ambiente musical proporcionado pela própria vila, de que eram responsáveis, entre outros, os cabeleireiros locais.

Foto de La Orquesta Diavólica, ca. 1920. Fonte: Documentos da família. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Foto de La Orquesta Diavólica, ca. 1920. Fonte: Documentos da família. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

A habilidade de Amador Campos para aprender a técnica de guitarra não devia ser pouca, pois rapidamente se desenvolveu de maneira autodidata em vários instrumentos, também no canto, e começou a dirigir orquestras de plectro. Além dessa habilidade técnica, também era boa a sua capacidade interpretativa, pois quando se dá a conhecer na década de 1920 já parece um grande guitarrista, com atuações frequentes na Radio Ibérica dentro do quarteto La Orquesta Diavólica, formada por três flautas transversais e uma única guitarra, que era um sucesso nas rádios da época (La Libertad, 1925; La Correspondencia Militar, 1926; El Socialista, 1926). E também com notáveis atuações como solista (El Heraldo Gallego, 1926) como este no Bar Nemésio de Lugo:

Amador R. Campos, el notable guitarrista que tantos éxitos obtuvo en diversas poblaciones de España, ha dado un nuevo concierto en el Bar Nemesio de esta ciudad.
Todo cuanto se diga referente a la interpretación del programa, compuesto todo de números de música clásica, es poco comparado con la realidad.
El recital de Campos constituyó un nuevo éxito para el artista, y el numeroso público que acudió a escucharle le ovacionó con frenesí.

Em 21 de julho de 1928 o concerto de Amador Campos no Teatro Divino Argüelles de Ribadesella era anunciado como “Grandioso Concierto de Guitarra” (documentos da família). No programa, dividido em três partes, constam o Capricho Árabe, Rosita e Pavana de Tárrega, um Estudo brilhante de Coste, as Variações sobre a Flauta Mágica de Mozart/Sors, a Berceuse de Schumann, Canzonetta de Mendelssohn, Granadina de Montoya, Fandanguillo de Moreno Torroba, a Lenda de Albéniz e uma obra própria, a Guajira de Amador Campos.

Vida de família numerosa

Retrato de Elisa Rodriguez, esposa de Amador Campos. Fonte: Documentos da família. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Retrato de Elisa Rodriguez, esposa de Amador Campos. Fonte: Documentos da família. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

A vida familiar de Amador Campos tinha mudado desde o seu casamento com a namorada Elisa Rodriguez (1900 – 1988), em torno do ano 1920. Ela era de família humilde e o relacionamento não era do gosto da família Campos, mais classista e católica, segundo as referências familiares. É por isso que Amador e Elisa casam-se em Madrid e, nessa cidade, nas idas e voltas de Madrid às Astúrias, nasceriam quatro das dez crianças que o matrimónio teve: América (finada sendo ainda bebé), Rogelia, Amador (pai de Amadorin), Genaro (pai de Maria Nieves), Virginia, Alfonso (pai de Amador), uma nova América, Maruja (Maria de los Milagros), José Luis e Gloria.

Em 2014, América (a segunda filha com esse nome), nascida em 1930, ainda lembrava ir de criança com o seu pai e mãe à residência de Andrés Segovia em Madrid, perto da Casa de Campo. Amador Campos visitou com frequência Andrés Segovia nos anos anteriores à Guerra da Espanha, de quem recebeu uma forte influência, especialmente no repertório, que se observa nos numerosos programas de concerto conservados pela família. Porém, também há entre a família a memória de uma certa rivalidade entre Segovia e Campos, ambos os dous da mesma geração, tendo ouvido que havia quem achasse ser o naviego melhor guitarrista do que o andaluz.

Grande sucesso nas décadas de 1920-30

Notícia de El Río Navia do sucesso em Oviedo, 1929. Fonte: Documentos da família. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Notícia de El Río Navia do sucesso em Oviedo, 1929. Fonte: Documentos da família. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

O máximo sucesso de Amador Campos na década de 1920 deveu ser o concerto organizado pelo Orfeón Ovetense, em 1929. O jornal El Río Navia publicava na primeira página e sob o epígrafe “Los naviegos que triunfan”, uma extensa e laudatória crónica do magistral concerto que deveu ser o dado por Amador Campos (documentos da família):

estudió a los grandes maestros, porque quiso también que la guitarra saliese del terreno popular y, como Segovia, se lanzó con su instrumento a los más altos vuelos de la música clásica y moderna.
la guitarra tañida por Campo es un órgano, un verdadero instrumento de concierto, con el que interpreta las más difíciles composiciones de Beethoven, de Schumann, de Schubert, Bach, etc., todos los clásicos. Y de los maestros de la composición Turina, Tárrega, Granados, Albéniz.

Elisa Rodríguez com vári@s filh@s e net@s, ca. 1985. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Elisa Rodríguez com vári@s filh@s e net@s, ca. 1985. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

A família numerosa, o fundo sentir republicano e a honradez de Amador Campos não facilitavam o seu sucesso como intérprete musical nos tempos do após-guerra e, contudo, há amostras de que ele recebeu aplausos e reconhecimento por todos os lugares onde passou. O elevado número de referências na hemeroteca aos seus concertos e a quantidade de informações do arquivo familiar oferecem um panorama próprio dum guitarrista profissional. Por outro lado, com a formação académica que Amador Campos tinha, quando não havia tantos concertos empregava-se em tarefas que podia realizar, como o breve tempo que trabalhou como administrador no Tranvia de Madrid, ou outros trabalhos eventuais que surgiam em Návia e que eram maneiras de arranjar um pouco de dinheiro para a família. Assim que era possível, Amador, o Boémio, não deixava perder as oportunidades de organizar giras de concertos para realizar a sua verdadeira função social, a de fazer música para a satisfação das gentes e de si próprio.

Programa do recital no Casino de Vigo, 1929. Fonte: El Pueblo Gallego. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Programa do recital no Casino de Vigo, 1929. Fonte: El Pueblo Gallego. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

Entre 1925 e 1936 registam-se mais de 80 documentos a anunciar concertos, programas, giras e atuações em diversos lugares, sobretudo nas cidades galegas, que atuou em todas, mesmo em vilas como Betanços, Vila Garcia, Marim e Tui. Normalmente era convidado pelas Sociedades Filarmónicas e Artísticas locais, como a Sociedad Casino de Boal, a Tertulia de Recreo de A Veiga, a Agrupación Artística compostelana, a Reunión de Artesanos da Corunha ou o Ateneo de Santander. Ele deslocava-se desde Návia ainda que o dinheiro a ganhar não era muito. Também tocou de maneira periódica em Xixón, Avilés e outras vilas asturianas como Ribadesella, Langreo, Boal ou Muros de Nalón, em Cantábria (Santander) e País Basco (Eibar), em Castela em cidades como Burgos e Madrid, e em Nájera (La Rioja). Contudo, o período de após-guerra foi terrível, um dos filhos, Alfonso, insistiu-me muito na fame que se passava naqueles tempos. O neto Amadorin lembra que durante a Guerra o avô teve de se refugiar em Portugal por medo às represálias pela defesa da legalidade republicana.

Um outro sucesso aconteceu em 1929, no mês de dezembro, num recém construído Teatro Losada de Ourense, a crónica daquele concerto diria (La Región, 1929):

La guitarra en sus manos suena a algo nuevo. Ya después entró de lleno para revelarse el artista definitivamente; su mano derecha tiene algo de extraordinario, sobre todo en la “Pavana”, la guitarra la vimos transformada en un piano, y sólo al gran Segovia habría que recordar para encontrar un paralelo.

Em 1932, após o recital do dia 13 de maio no Centro Asturiano de Madrid, a crónica dizia (documentos da família):

Amador Campo no es uno más entre los muchos concertistas de guitarra que vienen desfilando por Madrid; constituye una excepción porque excepcionales son sus facultades y los méritos que ha ganado en buena lid.

A Emisora Compostelana, a Unión Radio ou a Radio Nacional da Espanha retransmitiram as suas atuações ao vivo. Na Corunha, em 20 de abril de 1934, anunciavam o seu concerto no Teatro Rosalia Castro do seguinte modo (documentos da família):

Amador Campos, cuya visita recibimos todos los años por esta época, cuenta en La Coruña con inumerables admiradores, que hoy se darán cita en el Rosalía.

Na Ponte Vedra, diziam (El País. Diario republicano de la tarde, 1934):

Por nuestra parte, consideramos obvia toda ponderación de este aplaudidísimo concertista, pues los buenos aficionados pontevedreses recordarán con emoción el magno concierto que dió en nuestra democrática Sociedad de Recreo de Artesanos hará un par de años, en cuya época ya era de sobra conocido en toda España.

Em Vigo (El Pueblo Gallego, 1935):

los ágiles dedos y el gran temperamento artístico de Amador Campos hacen que el instrumento llegue a lo íntimo del alma del oyente produciendo en él las sensaciones de espiritualidad que solo están reservadas a los grandes artistas. Como ejecutante, tiene un mecanismo seguro y limpio, a la vez que una gran sonoridad.

Retrato de Amador Campos no Faro de Vigo, 1 de janeiro de 1929. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Retrato de Amador Campos no Faro de Vigo, 1 de janeiro de 1929. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

Seria bastante impensável que Amador Campos tivesse tocado em Ourense e Gutiérrez Parada não tivesse ido ao concerto. Ou que na Ponte Vedra, Javier Pintos Fonseca não tivesse conhecido e mesmo organizado o seu recital. Ou que algum dos regentes das orquestras de plectro viguesas, Ulibarri ou Dositeo Vazquez, não tivessem aparecido pelos seus recitais. Ou que um jovem Santos Sequeiros não tivesse tido ocasião de conhecer Amador Campos em Compostela. Nenhum destes encontros está documentado, mas o lógico é que o ambiente guitarrista galego conhecesse bem o grande Amador Campos e daí a frequência e o carinho com que era recebido todos os anos.

(continua no próximo artigo)

Referências bibliográficas

El Heraldo Gallego (1926). De Lugo. Otro concierto. Buenos Aires: 7 de novembro, p. 4.
El País. Diario republicano de la tarde (1934). En el Mercantil. Un recital de guitarra. Ponte Vedra: 22 de junho, p. 2.
El Pueblo Gallego (1935). En el Círculo Mercantil e Industrial. Después del recital de guitarra. Vigo: 26 de junho, p. 2.
El Socialista (1926). Radiotelefonía. Programa para hoy. Madrid: 24 de março, p. 3.
García Junceda (família). (1977). Genealogía del apellido García-Junceda. Oviedo: La Cruz.
La Correspondencia Militar (1926). Radiotelefonía. Programa para hoy. Radio Ibérica. Madrid: 15 de março, p. 4.
La Libertad (1925). Programa de radiodifusión para hoy. Madrid: 2 de dezembro, p. 7.
La Región (1929). Teatro Losada. Ourense: 7 de dezembro, p. 8.
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