Discos

Lais da Bretanha galego-portugueses

Isabel Rei Samartim
jueves, 26 de octubre de 2023
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Don Tristan "o Namorado" fez esta cantiga. Manseliña: Maria Gimenez (voz, fídulas), Tin Novio (alaúde), Pablo Carpintero (percussão), Araceli Fernández (voz e pandeireta), Manuel Vilas (rúbricas e harpa medieval), Mara e Eva Novio (coros). Lais da Bretanha galego-portugueses. Bem sabia eu mia senhor, Amor des que m'a vós cheguei, Dereit'é de s'end'achar, O Marot haja mal grado, Com'aveo a Merlim de morrer, Mui gran temp'a, par Deus, que eu non vi, Maestre, todolos vossos cantares, Dom amor, eu cant'e choro, Senhor fremosa e de mui louçao e Ledas sejamos hoje mais. Maria Gimenez, direção e produção. Engenheira de som: Camille Frachet. Texto do libreto: Gimena del Rio e Maria Gimenez. Um disco de 64,16 minutos gravado no estúdio da Air Classical em Roxos (Compostela, Galiza) em 2022. Editado por La Tirana, 2023. NL-3066, D.L. SE 747-2023.
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Sabes mais que Merlim é expressão popular para destacar a grande sabedoria de alguém, pois o mago Merlim está presente na tradição oral galega como um grande sábio. 

A nossa literatura moderna tratou a matéria da Bretanha, Merlim, Morgana, Artur, Lancelote, Genebra, Tristão e Isolda, nos poemas de Eduardo Pondal, nos relatos de Álvaro Cunqueiro, nas pesquisas e desenhos de Daniel Castelão, nas histórias de Vicetto, de Murguia, de Otero Pedrayo e nos romances da Begonha Caamanho.

Explicou Anxo Abelaira (1996) que a matéria da Bretanha leva na Galiza desde o século XII, como testemunham os documentos na Biblioteca da Catedral em Compostela, uma versão primitiva do livro de Tristão, os relatos das peregrinações de bretões no Códice Calixtino, o relacionamento do Bispado de Bretonha e as históricas relações marítimas entre Galiza e Bretanha.

As lendas partem de factos reais como a existência do rei Artur bretão no século VI e os conflitos por causa das invasões saxãs e anglas. As histórias desses conflitos causaram fascínio na nossa Idade Média e permaneceram na atualidade cultural na forma em que era habitual naquela época: as canções medievais.

Recuperação da música medieval: método e instinto

O projeto Manseliña, dirigido pela cantora, instrumentista e pesquisadora Maria Gimenez Fernandez, vem de apresentar o seu terceiro disco dedicado à música medieval galega, intitulado Don Tristan ‘o Namorado’ fez esta cantiga. O disco oferece dez canções sobre a matéria da Bretanha, restauradas musicalmente mediante o método explicado na Arte de Trovar, manuscrito do Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa, que explica como fazer uma ‘cantiga de seguir’ ou contrafactum.

Maria Gimenez, que estudou os cancioneiros galegos, occitanos e franceses, observa que há muitas melodias reutilizadas de poema em poema, e graças a elas pode ainda conhecer-se mais o processo de criação das melodias medievais. Na excelente entrevista realizada pelo jornalista Pablo Rodriguez Canfranc para Catalunya Press, Gimenez conclui que as melodias atravessavam territórios, línguas, géneros e repertórios sem dificuldade, mesmo pulando do religioso para o profano.

O resultado é um elaborado processo de criação que envolve o conhecimento erudito dos textos históricos, a sensibilidade e técnica necessárias para escolher a melodia adequada para as letras e um instinto poético-musical bem desenvolvido, qualidades todas que Maria Gimenez reúne de modo excepcional.

Nos trabalhos anteriores, o projeto Manseliña também teve em conta o património de tradição oral e popular galego, reutilizando melodias dos Cancioneiros galegos modernos como as canções apresentadas no primeiro disco Sedia la fremosa. No segundo disco, dedicado a Maria Balteira, Manseliña fazia um percurso pelas cantigas que falam sobre esta importante figura medieval galega interpretando-as com melodias medievais apropriadas à métrica e rítmica das letras conservadas nos cancioneiros galego-portugueses.

Um projeto vital para a Galiza

Neste terceiro disco Manseliña apresenta cinco lais anónimos enlaçados às cantigas medievais de Afonso o Sábio, Estevão da Guarda, Gonçalo Anes do Vinhal e Dom Dinis. Para a realização do projeto, além da voz e fídulas da Maria Gimenez, estão as da Araceli Fernandez também com pandeireta, Maria e Eva Novio Gimenez, acompanhadas pela voz recitada do harpista galego Manuel Vilas, o alaúde de Tin Novio e a percussão de Pablo Carpintero.

Uma interpretação de grande delicadeza e cuidado que vai acompanhada dum libreto com as letras originais dos poemas e explicações de Gimena del Rio e Maria Gimenez. 

Todo o CD é um mergulho num ambiente sonoro campestre, cheio de vozes femininas que cantam, falam, rim e se desenvolvem de maneira natural na música. A mocidade dalgumas colaborações evoca um sentimento de vitalidade e alegria que se mistura com a magia e o mistério da música medieval. 

Este novo disco de Maseliña nos oferece uma expressão renovada e feliz do nosso passado musical. É um símbolo do renascer da história que vem ao presente e promete um bom futuro para a nossa música, língua e cultura.

Referências

Abelaira, Anxo. (1996). A Materia de Bretaña en Galiza. Galiza-Breizh, n. 6.

Manseliña. (2023): Don Tristan ‘o Namorado’ fez esta cantiga. CD. 

Rodriguez Canfranc, Pablo. (2023). María Giménez (Manseliña): “El público de música medieval es muy agradecido”. Entrevista em Catalunya Press.

Wikipédia:Lai bretão

Wikipédia: Arte de Trovar

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