Vox nostra resonat

Manrique de Lara

Os Cantos populares de Manuel Manrique de Lara (2) Texto e contexto

José Luís do Pico Orjais
jueves, 4 de agosto de 2022
Manuel Manrique de Lara © Dominio público / José Luís do Pico Orjais Manuel Manrique de Lara © Dominio público / José Luís do Pico Orjais
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Terminado el banquete comenzó el baile, que estuvo animadísimo, por las muchas jóvenes hermosas que asistieron y lo mucho que se bailó. Tomaron parte activa en la fiesta los jefes, oficiales y guardias marinas británicos, que vestían de media gala, lo mismo que los marinos españoles. Los hombres civiles asistieron de frac. Caridad Herrera cantó con la inspiración y sentimiento ingénitos [sic] en su alma de artista, el aria de salida del paje en Los Hugonotes y la habanera de la ópera Carmen, acompañada al piano por nuestro estimado amigo el teniente de infantería de Marina don Manuel Manrique de Lara, que, como saben nuestros lectores, es también un artista distinguidísimo.*

Cantos populares é um documento digital de seis páginas disponibilizado pela BNE através da sua plataforma Biblioteca Digital Hispánica. O documento original foi adquirido pela BNE em 1949, fazendo parte do espólio de Manuel Manrique de Lara. As suas dimensões são 23 X 30 cm e não há qualquer dúvida de que as peças transcritas sejam recolhas etnomusicológicas realizadas pelo próprio Manrique por volta do 1885.* Todas as minhas notas foram feitas tomando como referência o documento digital e marginando aquelas peças sem qualquer relação com a Galiza. A continuação achego uns índices que podem ajudar a não perder-se num relato que por vezes pode resultar um bocado desarrumado. 

Índice de «Cantos populares» de Manuel Manrique de Lara. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.Índice de «Cantos populares» de Manuel Manrique de Lara. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Melodías repetidas en «Cantos populares» de Manuel Manrique de Lara. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.Melodías repetidas en «Cantos populares» de Manuel Manrique de Lara. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Datação

Seguindo a folha de serviço de Manuel Manrique de Lara

a partir de septiembre de 1885, observamos que forma parte del Segundo Regimiento ubicado en Ferrol, donde el Coronel le requiere como Secretario. No obstante, en el mes de diciembre encontramos a Manrique de Lara de nuevo en Madrid, haciendo uso de una licencia de Pascuas hasta marzo del año siguiente.
En 1886, Manrique de Lara es dado de alta en la Compañía de Guardias de Arsenales, siendo ya Alférez de número. Sin embargo, mantuvo este destino durante muy poco tiempo, ya que al mes se le envió de vuelta al Regimiento de Cartagena. [Díaz González, p.23]

Embora, no censo de habitantes do Ferrol continua a manter a sua residência no Campo do Batalhão, supomos que no Quartel de Dolores, ausente em Madrid por «hallarse residiendo en aquel punto por R.O.»*

Ao longo dos Cantos populares encontramos três anotações que nos permitem colocar temporalmente o documento.

p. 1: Junto à primeira das recolhas 1[1(a)], podemos ler: «-Galicia- Las mujeres en la fuente de la plaza. Ferrol – Ytre – 9/85 -».
p. 2: No canto inferior direito e escrito em oblíquo: «Ferrol = martes – 22 – diciembre – 1885 - = Enero- martes – 1886=».
p. 6: Ao princípio dos exercícios de harmonia: «Sep. 30/85».

Obviamente, estas datas parecem confirmar que a recolha teve lugar naquela época e que as transcrições foram feitas imediatamente depois. Mais um dado que reforça o que acabei de dizer encontra-se numa nota marginal da página 4 na que se afirma que uma das peças foi recolhida à Sra. Calé de Quintero. Falarei mais tarde das informantes, mas a família Quintero Calé instalou-se em Ferrol em 1884, especificamente no andar nº 20, 2º, da rua Galiano.* A filha maior do casal era a jovem pianista Emilia Quintero Calé (A Corunha, 5 de janeiro de1864 – Madrid, fevereiro de 1934), na altura já reconhecida no ambiente pianístico galego. Suspeito que é por ela e não pela mãe que na segunda página dos Cantos populares aparece duas vezes escrito o nome Emilia.

A correta datação deste documento resulta fundamental por dois motivos principais:

  1. Confirmaria um interesse precoce de Manrique de Lara por recolher e transcrever materiais folclóricos, mesmo anos antes de entrar em contacto com Menéndez Pelayo e Menéndez PidalLa relación de Menéndez Pelayo y Manrique de Lara se remonta al menos hasta 1897 […] previamente a su encuentro con Menéndez Pidal en 1904. [Díaz González, p. 34]
  2. Os Cantos populares são anteriores à publicação em Madrid de Cantos y bailes de Galicia de Inzenga, 1888. É certo que Inzenga já publicara na década dos setenta os Ecos de España [Inzenga, 1874] e mesmo em jornais diários alguma das partituras que depois incluiria no seu cancioneiro, mas antes de 1888 os referentes bibliográficos são outros. Na minha opinião, neste sentido têm um papel muito destacado a coletânea de Marcial Valladares, publicada como apêndice no primeiro volume da Historia de Galicia de Manuel Murguía. Devido a que a Historia foi publicada em fascículos, o pequeno opúsculo musical não saiu do prelo até 1866. A escassez de música patrimonial publicada na altura somado ao enorme prestígio de Murguia, fez com que as melodias harmonizadas por Marcial Valladares alimentassem inúmeras obras posteriores. 

Obelisco a Churruca na sua localização original. Nº 852 Julius Nagelsmidth Berlim W. 30  Serie II Nº 2 Papelería de “El Correo Gallego”. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.Obelisco a Churruca na sua localização original. Nº 852 Julius Nagelsmidth Berlim W. 30 Serie II Nº 2 Papelería de “El Correo Gallego”. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Outra publicação de referência há ser Cantares viejos y nuevos de Galicia de Marcial del Adalid, 1877, tratado por muitos dos seus coetâneos −com menos prejuízos do que a maioria dos musicólogos atuais como um cancioneiro del país. Quando Manrique transcreve as suas canções, o magistério de Casto Sampedro ainda estava por chegar, assim que tem que se enfrentar sozinho ao reto de pôr em papel aquilo que escuta ou crê escutar. E como veremos mais adiante, não lhe vai resultar nada fácil.

As informantes

Parte do repertório de Cantos populares são recolhas diretas de Manrique de Lara e parte através de mediadoras.

a) Recolhas diretas

Na p. 1, as três primeiras foram feitas a «las mujeres en la fuente de la plaza». Com certeza, o lugar a que se refere é a Praça de Armas, no coração do Ferrol velho. No seu centro levantava-se o Obelisco a Churruca, coroando uma fonte a qual acudiam as mulheres encher as suas selhas.

Na p. 4 apenas se nos aclara que os nº 1, 2 e 3 «han sido recogidos por mi», mas já dissemos que são repetições de peças anteriores.*

b) Recolhas através de mediadoras.

Juan Bautista de Armada y Losada, Marquês de Figueroa. (Madrid, 1861-1932) «La ilustración Española y Americana», 1904. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.Juan Bautista de Armada y Losada, Marquês de Figueroa. (Madrid, 1861-1932) «La ilustración Española y Americana», 1904. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Em 1885 Juan Bautista de Armada y Losada, Marquês de Figueroapublicava o romance de costumes Antonia Fuertes, ganhadora do prémio literário organizado pelo Círculo de Artesanos da cidade da Corunha. É possível que o Manrique e o Armada y Losada se conhecessem dos ambientes madrilenos. Ambos os dois eram praticamente coetâneos e não seria de espantar que partilharam amigos e serões. 

O Marquês é o principal informante da coleção à que aporta uma alvorada, uma moinheira, dois alalás, uma pandeirada e um palique entre namorados. Em 1885, o Marquês de Figueroa era um moço de 24 anos. 

Juan pasó su infancia en el lugar de Santa Cruz de Ribadulla, perteneciente al municipio coruñés de Vedra. [Ramírez Jerez, p. 44]

Emilia Calé Torres (A Coruña, 12 de fevereiro de 1837; Madrid, 18 de setembro de 1908). © Dominio público / Wikipedia.Emilia Calé Torres (A Coruña, 12 de fevereiro de 1837; Madrid, 18 de setembro de 1908). © Dominio público / Wikipedia.

Também passou épocas no de Cambados, vila que inspirou a ambientação da sua novela Antonia Fuertes. Em qualquer destes lugares o Marquês pode ter contacto com toda crase de labregos e labregas, trabalhadoras domésticas, músicos populares, etc., assim que a origem das suas achegas talvez venha de alguma destas localidades. 

Como já ficou dito, em 1884 o casal formado pelo funcionário público Lorenzo Gómez Quintero, de 54 anos, natural de Porto Rico e a poeta galega Emilia Calé Torres (A Coruña, 12 de fevereiro de 1837; Madrid, 18 de setembro de 1908) instalam-se no bairro velho do Ferrol na companhia das suas filhas: Emilia (21 anos), Sofía (19), Aurea (16) e Luciano (12). 

Emilia Quintero Calé fotografada para «Vida Gallega», 1909. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.Emilia Quintero Calé fotografada para «Vida Gallega», 1909. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Emilia (filha) regressara recentemente de Madrid onde tinha terminado seus estudos de piano, motivo mais que suficiente para justificar o interesse de Manrique pela família Gómez Quintero Calé. Da Sra. Calé Torres aparece transcrito um alalaa (sic).

Bibliografia 

  1. Adalid, Marcial del (1877) A mi María. Cantares viejos y nuevos de Galicia. Madrid: Pablo Martín. Placas tipográficas da Calcografia de Enrique Abad y Gil.
  2. Díaz González, Diana (2015) Manuel Manrique de Lara (1863-1929) Militar, crítico y compositor polifacético en la España de la Restauración. Madrid : Sociedad Española de Musicologia.
  3. Figueroa, Marqués de [Juan Armada Losada] (1885) Antonia Fuertes. Madrid: Imprenta y fundición de M. Tello.
  4. Figueroa, Marqués de [Juan Armada Losada] (1889) De la poesía gallega. Discurso leído en el Ateneo de Madrid por el Marqués de Figueroa el 11 de febrero de 1889. Madrid: Imprenta y Fundición de M. Tello.
  5. Inzenga, José (1874) Ecos de España. Colección de cantos y bailes populares. Barcelona: D. Andrés Vidal y Roger, editor.
  6. Inzenga, José (1888) Cantos y Bailes de Galicia. Madrid: Antonio Romero y Andía
  7. Murguía, Manuel (1865) Historia de Galicia. A Corunha: Imprenta de Soto Freire, editor.
  8. Ramírez Jerez, Pablo (2015). «Juan Armada Losada, marqués de Figueroa: político, literato y académico gallego. Apuntes bio-bibliográficos». Lucensia, Vol. XXVI (nº 51)

Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 1. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 1. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 2. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 2. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 3. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 3. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 4. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 4. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 5. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 5. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 6. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.Manuel Manrique de Lara, «Cantos populares», 6. © Edição 2022 by José Luís do Pico Orjais.


Notas

1. «El Correo gallego: diario político de la mañana», ano XV número 4266, 11 de novembro de 1892

2. Manrique de Lara, Manuel (23 de junho de 2022). Cantos populares [Archivo Digital]. http://bdh-rd.bne.es/viewer.vm?id=0000053633&page=1

3. Censo de povoação da Cidade do Ferrol, 1887, nº274/31

4. Censo de povoação da Cidade do Ferrol, 1885

5. Ver quadro de melodias repetidas.

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