Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

Fundos galegos de música para guitarra (1)

Isabel Rei Samartim
jueves, 8 de abril de 2021
Álbum de Fernando Torres Adalid, p. 71 © 2021 by Isabel Rei Samartim Álbum de Fernando Torres Adalid, p. 71 © 2021 by Isabel Rei Samartim
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Animada pelo amável convite do editor de Mundo Clásico, enceto com o presente uma série de artigos sobre a música para guitarra na Galiza, com a intenção de divulgar as informações refletidas na tese apresentada em setembro de 2020, na Universidade de Santiago de Compostela. Intitulada A guitarra na Galiza, a tese aborda aspetos musicais, históricos, sociais, organológicos, iconográficos, educativos e estilísticos em volta do uso desse cordofone, e outros membros da família, em terras galegas desde o século XII até ao XIX. Tendo em conta a qualidade, quantidade e diversidade dos fundos galegos de partituras para guitarra, a sua apresentação é um bom modo de iniciar-se no conhecimento deste novo universo musical.

Na minha experiência ao longo dos sete anos oficiais e dos vinte não oficiais que me levou a descoberta e catalogação das partituras, tenho visto que os fundos musicais podem aparecer, se forem procurados, em quase qualquer lugar. Normalmente, a Musicologia vai ver as fontes já catalogadas, para o que repassa os índices de Arquivos, Bibliotecas e Museus, todas instituições dedicadas à conservação do património geral e musical. Naturalmente, ao longo do processo de pesquisa visitei várias dessas instituições galegas com fundos de partituras para guitarra como a Biblioteca Geral da Universidade de Santiago de Compostela, o Arquivo Canuto Berea da Deputação Provinicial da Corunha, o Arquivo do Museu da Ponte Vedra, e outras relacionadas por extenso no texto da tese. 

Pieza enlazada

Mas, o que levou mais tempo, trabalho e cuidados foi a procura de novas fontes que não podem ser achadas numa vista de olhos pela internet, ou numa simples procura de catálogo. As novas fontes, normalmente, encontram-se fora das instituições, conservadas em casas particulares onde são atendidas por famílias que, pelo geral, apresentam um alto grau de consciência sobre o seu património. Segundo os dados conhecidos até ao momento, estes fundos ou conjuntos de partituras para guitarra representam uma excelente amostra da música feita na Galiza entre o último terço do século XVIII e o final do século XIX.

Manuscrito Barroco

O que denominei Manuscrito Barroco, por conter música própria dos séculos XVII e XVIII para guitarra, é um fólio dividido em quatro partes, com caligrafia duma única pessoa, a conter fandangos, falsetas, seguidilhas, um villano e uma gayta. A música está escrita em alfabeto barroco com números, além de conter uma linha em notação moderna, o que dá a entender que o guitarrista autor do manuscrito manejava ambos os sistemas de notação. O Manuscrito Barroco conserva-se no Museu da Ponte Vedra na mesma cota que outro dos fundos hoje apresentados aqui, o Caderno do Francês.

Caderno do Francês

Chamado assim pelas canções sobre a Guerra do Francês que protagonizou os acontecimentos em toda a Península entre 1807 e 1814, o Caderno do Francês é um conjunto de 67 obras, copiadas por várias mãos, em papeis de diversos tamanhos, e encadernadas em pergaminho num estilo que, sem dúvida, pertence ao século XIX. Junto com o Manuscrito Barroco antedito, o Caderno do Francês conserva-se na cota Sampedro 46-18, no Arquivo do Museu da Ponte Vedra, dentro do fundo do polígrafo pontevedrês Casto Sampedro Folgar (1848-1937). O caderno contém, além das canções representativas das batalhas contra os franceses, música para guitarra só e outras canções de amor com acompanhamento de guitarra, cujas características fazem pensar que foi elaborado por vários intérpretes entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX. Entre os nomes que figuram destacam os de Moretti, Ramón Bonrostro ou Miguel García (Padre Basílio). Também destaca uma antiga moinheira escrita para guitarra, uma Sonata em três andamentos, e a letra dalgumas canções como, por exemplo, um poema de Catulo traduzido ao castelhano por José Cadalso (1741-1782).

Fundo Valladares

Alvorada para guitarra no Fundo Valladares, f. 72r. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Alvorada para guitarra no Fundo Valladares, f. 72r. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Segue em antiguidade o fundo da família Valladares, inicialmente consultado na casa familiar ou Casa Grande, situada em Vilancosta, na freguesia de Berres, concelho da Estrada (Galiza), por sinal, o lugar de nascença da autora deste artigo. Atualmente, este fundo acha-se depositado e disposto para consulta na Biblioteca Geral da USC. É um dos conjuntos musicais mais abundantes da primeira metade do século XIX, com algumas obras suspeitas de pertencerem ao século anterior. Consta de umas 700 obras para vários instrumentos como piano, violino, flauta e voz, sendo por volta de 130 as escritas para guitarra. A família Valladares, de enorme influência na formação da Galiza atual, tem já vários nomes na literatura galega, nomeadamente Avelina Valladares, poeta e guitarrista, e Marcial Valladares, seu irmão, autor de várias obras literárias e do cancioneiro galego mais antigo (1865) dos conhecidos até ao momento, publicado por Orjais e Rei-Samartim (Dos Acordes, 2010). De Avelina e Marcial conservam-se no fundo familiar duas peças originais para guitarra, sendo a Soidade de Avelina a primeira obra registada escrita por uma mulher galega para guitarra no século XIX. Outro elemento de interesse são as canções com acompanhamento de guitarra, das que aparecem várias não catalogadas como as de Rafael Botella, Julio Nombela, Basilio Basili e Estanislao Ronzi.

Arquivo Canuto Berea

Baltasar Saldoni, «Perchè mio caro bene», Arquivo Canuto Berea (M-613/70). © 2021 by Isabel Rei Samartim.Baltasar Saldoni, «Perchè mio caro bene», Arquivo Canuto Berea (M-613/70). © 2021 by Isabel Rei Samartim.

A canção Una sombra do guitarrista Rafael Botella, com letra de Francisco G. Elipe, aparece também no fundo para guitarra do Arquivo Canuto Berea, que contém por volta de 100 obras para guitarra e voz com acompanhamento de guitarra. Este é dentre os arquivos musicais galegos um dos mais estudados e conhecidos. Para a informação geral é preciso remeter aos trabalhos de Xoán M. Carreira (1986; 1991-1992), María Dolores Liaño (1998) que realizou o catálogo musical, María Pilar Alén (2001; 2002), Lorena López Cobas (2007) e Beatriz López-Suevos (2008), além das partituras de Canuto Berea Ximeno e Canuto Berea Rodríguez publicadas por Margarita Viso Soto na Viso Editorial. No âmbito da música para guitarra, o Arquivo Canuto Berea oferece abundante informação sobre as editoras de música europeias no século XIX e também sobre a circulação de cópias manuscritas. Há canções não catalogadas como as de Paulina Cabrero Martínez, Federico Moretti, Luis Cepeda, Manuel Ducassi, José Melchor Gomis, Nemesio Enríquez, Manuel Ledesma e o que consideramos guitarrista galego, Francisco Baltar. Também para guitarra há música nova de Napoleon Coste e de um possível Mariano Bravo. Como curiosidade, advertir que neste fundo acha-se uma obra editada por Leon Lodré com o número de prancha 1, que é um arranjo para guitarra dos rigodões da Norma de Bellini, feito por Aquilino García.

Catedral de Lugo

Na catedral de Lugo conserva-se também um feixe de partituras manuscritas e assinadas pelo violinista e padre Luís Vila Ozores, ativo na Capela de Música pela metade do século XIX. O caderno, de música anónima na sua maior parte, tem na capa escrito o nome do guitarrista Juan de Arizpacochaga e, no interior, o mesmo Allegro que no início do século tinha publicado outro guitarrista, Salvador Castro Gistau, em Paris. As obras restantes são contradanças, valsas e uma pastorela, sendo uma delas coincidente com a do fundo Valladares. Não é estranho que o violinista, e capelão de vela do Santíssimo Sacramento, Luís Vila Ozores, fosse também guitarrista, pois há numerosas evidências desde o século XVIII de intérpretes a tocarem ambos os instrumentos. As fontes galegas para guitarra acreditam estas práticas também entre os guitarristas e violinistas galegos, como o próprio Marcial Valladares.

Fundo Torres Adalid

Para acabar este primeiro artigo sobre os fundos galegos para guitarra devemos mencionar a coleção da família Torres Adalid, estudada longamente por Margarita Viso Soto, Carolina Queipo Gutiérrez e, mais recentemente, Laura Touriñán Morandeira. A primeira metade do século XIX é uma época em que a cidade da Corunha intensifica a sua atividade comercial, e as famílias Adalid e Torres fazem parte fundamental dessa atividade, com relacionamentos económicos em Portugal, França e Inglaterra. A música era entendida como um dos meios educativos principais da burguesia galega, facto que se vê também na família Valladares, e a sua prática origina grandes coleções de partituras e instrumentos que se conservaram no tempo. No caso dos Torres Adalid, o seu enorme e ordenado conjunto de partituras conserva-se hoje entre a Biblioteca da Real Academia Galega e o Paço de Vilasuso, em Carral (Galiza). Na sua maior parte está constituído por música para piano e música de câmara, mas tem um subconjunto de música para guitarra composto por umas 90 obras, que abrange tanto a música de câmara quanto a guitarra solista e um original do método para guitarra mais famoso da época, o de Ferdinando Carulli. Sem dúvida, o guitarrista da família era Fernando Torres Adalid, irmão do pianista Marcial, ambos primos do virtuoso pianista Marcial del Adalid, mas as características da coleção indicam que na família deveu haver mais guitarristas. Deste fundo destaca, em especial, o excelente Álbum para guitarra onde há numerosa música operística, instrumental, de balé e diversas danças de ligação direta com a música popular e o mundo teatral. A música de câmara com guitarra, também excepcional, é para um capítulo à parte.

 Bibliografía

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