Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

Ricardo Freire Blanco, o virtuoso de Cedeira (e 3)

Isabel Rei Samartim
jueves, 5 de octubre de 2023
Ricardo Freire Blanco num concerto em Montevideu © by Isabel Rei Samartim Ricardo Freire Blanco num concerto em Montevideu © by Isabel Rei Samartim
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À bela Mabel e suas filhas guitarristas

Curiosidades da coleção

A coleção além das partituras tem recibos de compra de todo o tipo de material para interpretar, para construir e para pintar. Também tem livros de teoria da música e o método de António Cano intitulado Armonia aplicada a la guitarra. As peças mais antigas parecem ser umas obras manuscritas, sem data nem título, copiadas com grafia do século XIX em papel mais grosso e ignoramos como chegaram até Ricardo Freire.

Obra de Oyanguren dedicada a Ricardo Freire em 1961. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.Obra de Oyanguren dedicada a Ricardo Freire em 1961. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.

Também há uma partitura editada da Serenata de Sinópoli com a data de 1928, e outra da Fantasia Gaucha de Oyanguren publicada em Nova Iorque por Vicente Tatay, o construtor de guitarras, impressa por Enrique Diaz na mesma cidade no ano de 1934. Desta obra há também na coleção uma cópia manuscrita por Oyanguren, professor de Ricardo Freire, a quem está dedicada com estas palavras: “Copia única para mi estimado y muy aventajado discípulo Ricardo, com sincero afecto. Martínez Oyanguren. Febrero, 1961”.

Cópia e arranjo da Luna Tucumana de A. Yupanqui e Nenette Pepin Fitzpatrick. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.Cópia e arranjo da Luna Tucumana de A. Yupanqui e Nenette Pepin Fitzpatrick. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.

Mas a maior curiosidade são as anotações, poemas, frases, pensamentos que Ricardo Freire ia deixando nas partituras. Segui-las é ver o seu pensamento, o seu interior. Assim, à beira do título das transcrições de Savio sobre obras de Tárrega lemos: “para qué vale una guitarra sin un corazón que la taña”. Outras vezes, parecem produto de raptos de obsessão, a necessidade de escrever uma ideia ou um sentimento premente, como nos poemas e frases seguintes:

Veo los buitres volar sobre mi nido
Son fuertes, hambrientos y descoloridos
Los veo que me han vencido.
Morir es volver
Mira que tocar Bach en un instrumento de peteneras...

Numa contracapa figura a sentença: “Vale más un esclavo vivo que un Rey muerto”. Algumas destas mensagens descrevem muito bem os sentimentos de Ricardo Freire ao não ser reconhecido na sua terra como o grande artista que era. Outras são traços de conversas com a sua esposa, Mabel, que repassava as partituras e também lhe deixava mensagens em resposta. E outras são reflexões pessoais que deixou por escrito, em lugares que eram parte indispensável da sua vida corrente.

Música galega para guitarra

Alvorada de Veiga copiada e arranjada por Ricardo Freire. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.Alvorada de Veiga copiada e arranjada por Ricardo Freire. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.

Na coleção de música de Ricardo Freire Blanco há várias obras que fazem referência à Galiza: por pertencerem a algum estilo musical galego, por serem de autor galego mas o estilo não, ou por serem inspiradas em estilos galegos. Uma delas é uma obra de estilo galego, a Alvorada Galega de Pascoal Veiga, mais conhecida por “Alvorada de Veiga” para poder diferenciá-la doutras alvoradas conhecidas na época como as de Montes e Varela Silvari. Naturalmente, o seu compositor também é galego e um dos criadores mais importantes da nossa música no último terço do século XIX. A peça é um clássico que no seu dia teve três versões publicadas: para piano, para violino e piano e para coro.

Até ao momento temos localizados três arranjos para guitarra da Alvorada de Veiga nas coleções de partituras de três guitarristas galegos: O primeiro que eu pude consultar é o do guitarrista Luís Eugénio Santos Sequeiros, o médico de Cangas já conhecido do público leitor destes artigos. O segundo é o de Xosé Chas, recentemente publicado por Franqueira (2019) e o terceiro é o de Ricardo Freire. O arranjo de Chas está em Lá M e algumas soluções são muito guitarrísticas. As outras duas versões estão em Ré M e são claramente baseadas na versão para piano, o que as torna bem complicadas, sendo a de Ricardo Freire a que possui algumas soluções que facilitam a interpretação. No caso de Santos Sequeiros, ele optou por fazer uma versão a várias vozes para o seu grupo de plectro. Uma análise mais demorada poderá trazer à luz interessantes informações sobre a evolução desta peça no século XX.

Obra de João Parga editada e vendida em Buenos Aires e Montevideu. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.Obra de João Parga editada e vendida em Buenos Aires e Montevideu. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.

Três obras do ferrolano Parga conservam-se no acervo de Ricardo Freire: Sevillanas Op. 11, foi publicada pela editora argentina Romero y Fernandez e vendida na Antigua Casa Nuñez em Buenos Aires. Alhambra (parte final) Op. 29 parece ter sido publicada pela Ricordi Americana, também em Buenos Aires, isto deduz-se do número de prancha da partitura e do desenho na contracapa. Também há uma cópia manuscrita de Ricardo Freire das cinco primeiras partes desta obra. E a 3ª Rapsodia de Concierto Op. 6 publicada também por Romero y Fernandez e vendida em Montevideu na Casa Praos.

Como exemplo de música de autor inspirada nos estilos galegos está a obra intitulada Dos canciones populares gallegas composta pelo guitarrista catalão Graciano Tarragó, pai da conhecida virtuosa Renata Tarragó, e publicada pela Union Musical Española em Madrid, em 1967. A primeira das peças é Antigua Cántiga, está escrita em Sol m, 6/8 e tem ritmo Lento. A segunda é Baila, Maruxiña, imita o tempo e o ritmo de moinheira e está em Ré M. Com certeza não se trata de música tradicional nem popular. São produto da imaginação do compositor que se inspirou naquilo que conhecia da nossa música, o que não impede as obras de serem lindas e interessantes.

E para acabar estão na coleção mais duas obras inspiradas nos estilos galegos. A primeira é a Gallegada do Francisco Cimadevilla (1861-1931) que a incluiu no seu álbum intitulado La guitarra española, publicado pela UME em 1954. Todas as peças do álbum foram compostas em imitação de estilos andaluzes salvo a Gallegada, a Jota que seria aragonesa e o Zortzico que imitaria o estilo basco.

A última peça de inspiração galega é do virtuoso do flamenco Luís Maravilla (Luís Lopez Tejera), e de José Maria Franco. Intitula-se Aires Gallegos e foi publicada em 1950 pela Ricordi Americana, em Buenos Aires. O tema principal da obra inspira-se na melodia da moinheira galega mais antiga de que temos registo, a que se acha anotada como Gaita no livro de António de Santa Cruz (séc. XVII) e aparece também no manuscríto Saldívar de Santiago de Múrcia (séc. XVIII). É a mesma do Manuscrito Barroco (séc. XVIII) e da Moinheira do Fundo Pintos Fonseca (séc. XIX), estas duas conservadas no Arquivo do Museu da Ponte Vedra.

Música original e transcrições de Ricardo Freire Blanco

Ricardo Freire era constante no estudo e minucioso nos seus arranjos, as anotações de tempo, agógica, dinâmica e dedilhação costumam aparecer nas obras que estava a preparar e também nas que ensinava ao seu alunado. Na coleção vemos vários tipos de edição de partituras:

1)    obras para guitarra copiadas por Ricardo Freire

2)    obras para guitarra copiadas por outras pessoas

3)    transcrições da autoria de Ricardo Freire:

- copiadas da sua mão

- copiadas por outras mãos

4)    revisões de Ricardo Freire em cópias da sua mão. Estas últimas não são transcrições, mas unicamente cópias de obras musicais que talvez ele conhecesse editadas e queria colocar-lhe a sua dedilhação pessoal.

5)    dedilhações de Ricardo Freire em partituras publicadas.

6)    partituras publicadas por diversas editoras, sem marcas.

Obra de Hilarion Leloup (1876-1939), concertista argentino, editada pela Casa Nunez. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.Obra de Hilarion Leloup (1876-1939), concertista argentino, editada pela Casa Nunez. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.

As revisões de obras doutros guitarristas são uma marca de época. Nas décadas centrais do século XX e a medida que se ia conhecendo cada vez mais a música histórica para guitarra, aumentou a tendência a realizar revisões (que muitas vezes eram chamadas de transcrições) das obras escritas por guitarristas. Era um modo de deixar uma marca pessoal, uma distinção que permitia a publicação massiva das obras.

Arranjo de Ricardo Freire do tango "Dominga" de Alberto Ximenez. A cópia parece preparada para edição. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.Arranjo de Ricardo Freire do tango "Dominga" de Alberto Ximenez. A cópia parece preparada para edição. Fonte: Acervo familiar. © 2023 by Isabel Rei Samartim.

Num momento em que o repertório histórico estava muito oculto e o novo repertório chegava aos poucos, a republicação e reedição das obras conhecidas era importante quer para as editoras, quer para os intérpretes. Hoje essa tendência diminuiu ao ver-se como uma espécie de falsificação das obras originais, mas no seu dia deu continuidade e voz a muitos guitarristas.

Ricardo Freire era, sobretudo, intérprete e professor de guitarra. Da sua autoria é o prelúdio Mabelita, carinhosamente dedicado à pessoa mais importante da sua vida, a sua esposa. Deste prelúdio há duas versões, tão diferentes que pode afirmar-se que são duas obras diferentes do mesmo título. 

A continuação deixamos uma listagem dos arranjos realizados por Ricardo Freire, e outra com as revisões a conterem pequenas variações dos originais, mudanças ou atualizações da dedilhação.

Arranjos para guitarra:
  1. Danza española n.º 11 de Enrique Granados
  2. Spartacus de Aram Khachaturian
  3. Dominga, tango de Alberto Ximenez
  4. La paloma de Sebastian Iradier
  5. Preludio de Johann Sebastian Bach
  6. Preludio de Manuel Maria Ponce (um tom mais baixo que o original)
  7. El viejo castillo de Modest Mussorgski
  8. Adagio en Sol de Tomaso Albinoni
  9. Alborada de Pascoal Veiga
  10. La leyenda del beso de Reveriano Soutullo e Joan Vert
Revisões de obras para guitarra:
  1. Alhambra Op. 29 de João Parga (as cinco primeiras partes)
  2. Lamento gitano de Bartolomé Calatayud
  3. Fandanguillo de Bartolomé Calatayud
  4. Bulerias de Bartolomé Calatayud
  5. Madroños de Federico Moreno Torroba (duas cópias diferentes)
  6. Tango de Francisco Tárrega
  7. Romance de amor (Romance Anónimo)
  8. Mazurca de José Pierri Sapere

Ricardo Freire Blanco deixou gravada no final da sua vida uma amostra da sua capacidade interpretativa numa fita cassette que ainda conserva a sua família. A gravação, com aparelhos caseiros, realizou-se na Galiza, na sua etapa final e é um legado sonoro que ele quis deixar às pessoas que amamos a guitarra. A fita tem 22 obras gravadas:

Face A
  1. Pavana de Luis Milan
  2. Prelúdio de Manuel Maria Ponce
  3. Sarabanda de Isaías Savio
  4. Prelúdio de Johann Sebastian Bach
  5. Pavana de William Byrd
  6. Dous estudos de António Sinópoli
  7. Quatro minuetos de Ferran Sors
  8. Lágrima, prelúdio de Francisco Tárrega
  9. Marieta e Adelita, mazurcas de Francisco Tárrega
Face B
  1. Recuerdos de la Alhambra de Francisco Tárrega
  2. Prelúdios 4, 3 e 1 de Heitor Villa-Lobos
  3. O velho castelo de Modest Mussorgski
  4. Prelúdio 7 de Frederic Chopin
  5. Prelúdio (póstumo) de Francisco Tárrega
  6. Musette de Johann Sebastian Bach

Algumas destas obras foram publicadas em vídeos, acompanhadas de fotografias familiares, realizados pela filha Alícia Freire Vera, guitarrista e realizadora de audio-visual, que amavelmente disponibilizou na internet como amostra do legado do seu pai à guitarra e às guitarristas de todo o mundo.

Referências bibliográficas
  1. Acervo da família Freire-Vera.
  2. Informações de Charo e Alícia Freire, e sua mãe Mabel Vera amavelmente facilitadas à autora deste artigo.
  3. Franqueira, Sergio. (2019). Soños da floresta. Selección de obras para guitarra. Baiona: Dos Acordes.
  4. Rei-Samartim, Isabel. (2020). A guitarra na Galiza. Tese de doutoramento. Universidade de Santiago de Compostela.
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