Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

Huerta, Fola e del Vando na Galiza

Isabel Rei Samartim
jueves, 7 de marzo de 2024
Fernando de Torres Adalid (Lluís Ferrant Llausàs, 1852) © 2015 by Carolina Queipo Fernando de Torres Adalid (Lluís Ferrant Llausàs, 1852) © 2015 by Carolina Queipo
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Dedicamos este artigo a completar os anteriores falando dum guitarrista alacantino, Trinidad Huerta, outro castelhonense, José Fola, e um terceiro, andaluz, Eduardo del Vando, porque duma ou doutra forma têm informações significativas para o estudo da guitarra na Galiza. Os dous últimos tocaram aqui, entanto o primeiro foi citado por alguns musicólogos com motivo dum assunto musical galego.

Trinidad Huerta

Sobre Trinidad Huerta Caturla (Orihuela, 1800 – Paris, 1874) escreve Varela Silvari, sempre defensor dos músicos e da música, este breve comentário publicado na revista La España Musical (14 de fevereiro de 1874) e reproduzido em Suarez-Pajares e Coldwell (2006, p. 51) de onde o tomamos:

El célebre Huerta, guitarrista español de nuestros días, es uno de los primeros profesores modernos. A pesar de esto, su vida ha sido siempre muy angustiosa; y para colmo de su desgracia, se vio estos últimos años reducido al triste estado de músico ambulante, por las calles de París. Con razón puede decirse que en España no se protege el mérito de los artistas; y que su jubilación, en virtud de los años consagrados al estudio, es probablemente la miseria...

Temos observado um século antes esta mesma reflexão em Ferandiere (1771), que denunciava o "poco premio" que tinham os músicos na Espanha, o qual não deixava de ser um curioso paradoxo, especialmente quando referido a guitarristas.

Pieza enlazada

Huerta era conhecido na Galiza desde a primeira metade do século XIX, prova disso são as várias obras dele no Álbum de Fernando Torres Adalid. Veja-se o artigo desta série dedicado a este fundo. Além disso, em junho de 1895 um jornal galego celebrava o nascimento de Huerta, junto de outras personalidades artísticas nascidas no mês de junho em diferentes anos, como Offenbach e Inzenga, Afonso X, Rembrandt e o cientista Isaac Peral (El Eco de Galicia, 1895).

Mas, uma informação curiosa sobre Huerta nos vem da mão dos musicólogos galegos Ramón de Arana e Indalecio Varela Lenzano. A respeito da polêmica sobre a composição do Hino de Riego, Arana e Lenzano acrescentam que Huerta se atribuía a composição da música. Estes dous musicólogos refutam algumas afirmações tanto de Varela Silvari quanto de José Inzenga e asseguram que a composição da letra do hino é do militar Evaristo San Miguel (La Idea Moderna, 1901):

Huerta, el famoso guitarrista alicantino, se atribuía la paternidad de la música, aunque no con tanto orgullo como la del bolero de Lola Montes ó la respuesta al sentido canto irlandés que Flotow popularizó en su ópera Martha. Contaba, pues, el eminente guitarrista, que hallándose un día en compañía del que fué después general San Miguel, tarareó una canción francesa que empezaba con la música que forma la primera parte de las tres de que se compone el Himno, canción de no escaso mérito y cuya letra en español, mal adaptada por cierto, dice así: "no, no, no, no, no, no quiero casarme, que es mejor, que es mejor ser soltero. Y siempre placentero, del mundo, del mundo gozar".
Estas jaculatorias de un solterón recalcitrante, según Díaz de Benjumea, inspiraron las aleluyas de un patriota conmovido. Huerta se encargó de componer la música restante, á saber, uma respuesta, que no es otra cosa la segunda stanza, y un finale ó resolución neutra, que lo mismo puede servir á la música antecedente que á otra cualquiera, para coronar la invención del poeta.

Partitura das Manchegas de teatro, da possível autoria de Trinidad Huerta, no Álbum de Fernando Torres Adalid. © 2024 by Isabel Rei Samartim.Partitura das Manchegas de teatro, da possível autoria de Trinidad Huerta, no Álbum de Fernando Torres Adalid. © 2024 by Isabel Rei Samartim.

Mas, a atribuição da letra a San Miguel tem pouca solidez e a composição da música do hino continua a ser hoje uma incógnita. Torres Cortés (2014) aponta que o papel de Huerta com o Hino de Riego seria unicamente o da sua difusão, dado o amplo público ao que chegou o virtuoso alacantino.

Nós, ao lermos o arranjo para guitarra publicado em Suarez-Pajares e Coldwell (2006, pp. 92-93) vemos que Huerta lhe deu uma forma clássica e o elaborou para ser tocado como música de salão. Um dos elementos curiosos é que coloca na segunda parte duas indicações de percussão e trombetas, não sabemos se imitando as interpretações reais da época ou introduzindo estes elementos de modo teatral na sua versão da peça. Em qualquer caso, trata-se de um arranjo pessoal cujo autor é sem dúvida o eminente Huerta.

José Fola Itúrbide

O guitarrista José Fola Itúrbide menciona-se na imprensa galega (El Lucense, 1893):

Al mismo tiempo que hablan los periódicos de un notable guitarrista español, el señor Fola Itúrbide, que ha dado conciertos en que se ha venido á demostrar que la guitarra es tan artística como el arpa; mientras se anuncian fiestas en todos los salones y los teatros rebosan gente y bienestar, en un solo dia mueren heladas dos personas, y tres se suicidan. El drama y la comedia marchan juntos, y como he dicho muchas veces, si la riqueza no comprende sus deberes, y si el mundo no se influye más por el catecismo ó por el altruismo, el desequilibrio de las sociedades modernas puede llevarnos á algo muy grave.

Capa duma comédia de José Fola Itúrbide, também guitarrista. © Dominio público.Capa duma comédia de José Fola Itúrbide, também guitarrista. © Dominio público.

Este nome aparece referido (hoje como Igúrbide) a um autor de teatro, valenciano de Castelló, que era mação igual que Pintos Fonseca. Na quarta parte dos artigos dedicados ao fundo deste guitarrista da Ponte Vedra já explicávamos que José Fola poderia ser familiar do matemático valenciano Apolinar Fola Itúrbide.

Não há uma biografia clara de José Fola/Fole Itúrbide/Igúrbide (Thion). Suspeitávamos que este Fola, ou Fole (sic), fosse o também nomeado por Landin (1999, p. 313) junto a João Parga, quando diz que ambos os dous tocaram, por separado, no Casino da Ponte Vedra.

E as nossas suspeitas viram-se confirmadas quando tivemos acesso ao diário de Javier Pintos Fonseca, quem anota em 19 de outubro de 1890 um concerto de guitarra por José Fola no Casino em que tocou a valsa Las Sélfides, Polonesa e Rondeña de Julián Arcas, a Marcha fúnebre de Thalberg, que poderia ser também o arranjo de Arcas, e uma Gran Jota da sua própria autoria. O motivo da estadia de José Fola na Ponte Vedra explica-o também Javier Pintos em 1 de setembro de 1890, e diz que vinha visitar o seu sogro. Pintos Fonseca conserva uma curiosa notícia do Diario de Pontevedra (1890):

En una reunion de corto número de amigos en petit comité, tuvimos el placer de escuchar y ver el notable guitarrista español don José Fole, verdadero maestro en el nacional instrumento, que ha alcanzado repetidos éxitos en el extranjero y recientemente en la capital de Francia.
Como no desconfiamos de poder escuchar al Sr. Fole en otra sesion más solemne, para entonces dejamos ocuparnos del artista y de su mágica guitarra con más detenimiento, limitándonos por hoy á consignar que ayer ha sido sinceramente admirado por cuantos le escucharon, maravillandose de su prodigiosa ejecucion, de su sentimiento artístico delicado, de su manera de decir frases que parecen brotar de un instrumento ideal, y hasta de las condiciones de éste que, colocado en un aparato perfeccionado por el mismo artista, adquiere una sonoridad extraordinária, venciendo así la deficiencia que los primeros maestros de la guitarra han encontrado siempre para determinado género de música y en especial para la clásica.

O jornalista podia estar a referir um aparelho para amplificar o som que na Valência de fim do século estava muito na moda, como o ressoador Terraza, à venda nas lojas de música na Ponte Vedra e Vigo, com anúncios registados por volta do ano 1900. A crónica da atuação de Fola parece indicar a autoria do aparelho usado, o que condiz com a sua formação como filósofo e matemático, além da de possível dramaturgo.

Fola divulgaria o seu invento durante a estadia familiar na Ponte Vedra e, dada a relação de amizade entre Javier Pintos e o industrial Lopez Paratcha, dono de um dos armazéns de música pontevedreses, esta poderia ser a origem do interesse das lojas galegas por este tipo de sistema de ressonância para guitarras.

Eduardo del Vando Saez

Pieza enlazada

No fundo de partituras manuscritas de Javier Pintos Fonseca também achamos uma da letra do guitarrista andaluz Eduardo del Vando, assinada em 30 de junho de 1909. Trata-se da Mazurka de los paraguas em arranjo de Tárrega, que del Vando quis fazer chegar a Pintos. Em 1893, Fola e del Vando já se conheciam e tocavam juntos em Madrid (El Popular, 1893). Um ano mais tarde, del Vando anuncia que se acha em Sevilha como professor de "flamenco y serio a domicilio y en su casa Plaza del Duque de Alba, 1, pral. izquierda" (El Heraldo de Madrid, 1894). Mas não seria até 1905 que Eduardo del Vando Saez viria à Galiza, apresentado como professor da infanta Isabel (filha de Isabel II), chegando a Vigo no mês de junho sendo contratado para trabalhar como guitarrista no Cinematógrafo Sanchis situado na rua de Policarpo Sanz (Noticiero de Vigo, 1905a, 1905b, 1905c):

El mayor éxito y suceso de la noche lo constituyó el célebre concertista de guitarra D. Eduardo del Vando Sáez.
Al principio gustó en su repertorio de aires populares, pero en las últimas sesiones en que ejecutó parte de su extensísimo repertorio de música de concierto, hizo tales filigranas, que el público le premió con una entusiasta ovación.

Del Vando continuaria tocando no Cinematógrafo Sanchís. No final do mês foi à Ponte Vedra, onde provavelmente conheceu Javier Pintos Fonseca e cabe pensar que falariam do seu amigo comum José Fola (Noticiero de Vigo, 1905d).

Um amigo de Pintos vestido de teósofo, data aprox. 1890-1900. © 2024 by Arquivo familiar, Pintos.Um amigo de Pintos vestido de teósofo, data aprox. 1890-1900. © 2024 by Arquivo familiar, Pintos.

Del Vando tocaria na Ponte Vedra e depois iniciaria uma extensa tournée por Portugal, onde percorreria os melhores teatros em Lisboa, Cascais, Porto, Estoril, Figueira da Foz e Espinho (Noticiero de Vigo, 1905e). A notícia concluía informando da sua intenção de passar uma longa temporada em Vigo. E, com efeito, assim se constata na imprensa, quando no mês de outubro começavam a aparecer os anúncios como professor de guitarra instalado já na Praça Argüelles, 2, 2º esquerda (Noticiero de Vigo, 1905f).

Portanto, quando Eduardo del Vando copiava a partitura de Tárrega para Javier Pintos, em 1909, ele já era vizinho da cidade de Vigo. Pintos era uma figura da música naquele tempo na Ponte Vedra, e a sua influência como guitarrista poderia ter levado, como em tantas outras ocasiões, a conhecer e tratar o guitarrista andaluz.

Referências citadas

  1. El Eco de Galicia. Diario de la tarde. (1895). “Junio”. Lugo: 7 de junho, p. 2.
  2. El Heraldo de Madrid. (1894). “Profesor de guitarra”. Madrid: 23 de janeiro, p. 4.
  3. El Lucense. (1893). “Política europea”. Lugo: 3 de janeiro, p. 2.
  4. El Popular. (1893). “Espectáculos para hoy”. Madrid: 19 de outubro, p. 3.
  5. Ferandiere, Fernando. (1771). Prontuario músico para el instrumentista de violín y cantor. Málaga: Impresor de la Dignidad Episcopal y de la Santa Iglesia
  6. La Idea Moderna. (1901). “Monografía sobre la música patriótica española. Capítulo IV”. Lugo: 9 de outubro, p. 1.
  7. Landin Tobio, Prudencio. (1999). De mi viejo carnet. Ponte Vedra: Deputação Provincial.
  8. Noticiero de Vigo. (1905a). “D. Eduardo del Vando”. Vigo: 10 de junho, p. 3.
  9. Noticiero de Vigo. (1905b). “Noticias de espectáculos. Cinematógrafo Sanchis”. Vigo: 16 de junho, p. 2.
  10. Noticiero de Vigo. (1905c). “Noticias de espectáculos. Cinematógrafo Sanchis”. Vigo: 20 de junho, p. 3.
  11. Noticiero de Vigo. (1905d). “Noticias personales. Los que viajan”. Vigo: 27 de junho, p. 2.
  12. Noticiero de Vigo. (1905e). “Un maestro de la infanta Isabel”. Vigo: 27 de setembro, p. 3.
  13. Noticiero de Vigo. (1905f). “Profesor de guitarra”. Vigo: 2 de outubro, p. 3.
  14. Suarez-Pajares, J. e Coldwell, R. (2006). A. T. Huerta (1800-1874). Life and works. San Antonio (Texas): DGA Editions.
  15. Thion Soriano-Mollá, Dolores. (s/d). “El poder del teatro al servicio del contrapoder”. OpenEdition Books. 
  16. Torres Cortés, Norberto. (2014). “Trinidad Huerta y la guitarra rasgueada preflamenca”. Música oral del Sur(11), pp. 120-140.
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